quarta-feira, 13 de maio de 2015

O das sortes ou Ode às sortes ou Só dás sortes

Porque é sempre difícil voltar à vida disto, deixo só a seguinte mensagem: Seja responsável. Pense com moderação.


O das sortes ou Ode às sortes ou Só dás sortes

As moedas que atiramos ao ar
Caem, invariavelmente, na nossa cabeça.
Ainda que nos aterrem na mão, na algibeira,
No balcão onde a criada velha nos reprova a borracheira
Ou no coração onde, criados velhos, vamos sempre devagar.

São assim as moedas que atiramos ao ar.

Feitas de metal que é só o nosso olhar
A olhar para elas enquanto rodam, coloridas.
Nessa altura não são moedas: são vidas
Que rodopiam e se escusam à razão.
As moedas que lançamos ao ar estão todas na nossa cabeça
E todas caem, com estrondo, no mesmo chão.
Caem na loiça vazia da aspereza do nosso dia,
E não a partem porque fazem mais barulho sem partir.
Todas as moedas vão de sorte e, com sorte,
Todas a hão de voltar e de cair…
Antes (d)a morte.
Antes (de) ir.

As moedas que atiramos ao ar são a nossa expectativa.
São mais que o querer ganhar: são mau perder!
São a nossa presunção de as depositar num ofertório
Da missa de um padre transitório como é a nossa cristandade.
As moedas que lançamos ao ar são todas a verdade,
E todas são o medo que temos de a enfrentar.
“Antes a sorte que tal sorte...” – dizemos e lançamos
Apertamos bem os nós dos dedos e, cegos, fitamos
O que o destino nos tem reservado.
Bruxo de cega sina e mau-olhado,
Pecado só pago no cestinho da missa matutina.

São assim as moedas que atiramos ao ar.

E há os que as apanham no ar, pensando vencer a charada.
Mas as moedas que não chegam ao seu ponto não são nada.
Cada moeda tem o seu destino a cumprir
E, por isso, será uma a decidir
O este poema poder acabar à toa.

Coroa.

Coisa rara:
Cair-me na cara uma coroa.

Rafael Cardoso Oliveira

"São sete da tarde e passa tudo a correr
Alguém vai para casa tratar mal a mulher
Ele acha natural, ela esconde as suas rugas
Aquele ali vai p'rós copos tratar das suas fugas."
Sete, Jorge Palma


domingo, 18 de janeiro de 2015

O poema dominical

Próprio para consumo, e com o relato curto das últimas publicações. Entretenham-se.

O poema dominical

Irmãos,
Naquele tempo - que, até ver, é este - disse Jesus,
Co’a voz pesada e compassada que era de si:
“Nenhum poema há de pregar-se nesta cruz
Nenhum verso há-de morrer aqui.
Preguem-se os homens, as deidades, as ideias,
As cousas feias. Jamais se prenda a luz!
E maldito seja o blasfemo que o negue:
Que os homens o não escutem e deus o pregue!”

E, como hóstia divina aos céus entregue,
Endereçou, o filho pródigo, a maldição:
Aos ouvintes que não sabiam o que falava,
Ao povo que só lhe pedia peixe e pão.
E ignorantes, compuseram, em segredo,
A oração de quem não sabe e, só, tem medo:

“Pai nosso, que não sabemos onde estás,
Santificado seja o vosso nome.
Venha a nós o vosso reino, que o rapaz
Que é vosso filho diz que lá ninguém tem fome.
Seja feita a nossa vontade… (Ou saciada, que é igual)
Antes de morrer e, se puder ser, depois um dia.
E livrai-nos do mal e dai-nos peixe, leite, azeite e sal
Que p’ra comer só há pão nosso de poesia.”

Rafael Cardoso Oliveira

"Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada,

mas não digas nada que eu estou a salvo." - Livro das Invenções

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Catatuas Catatónicas

Sem mais de momento. Para os pacientes:


Libertação ou o poema catártico das catatuas catatónicas

Voam, sobre mim, duas catatuas catatónicas.
São duas.
Não convirá serem mais que duas, para fins de poesia.
São brancas e bonitas, de cristas amareladas
Ricas e educadas.
Pairam, mas estão aflitas por ir embora.
Esbracejariam, se braços tivessem.
Vociferariam, se eu lhes desse uma voz.
Mas não dou. Este poema é meu
E vai só aonde eu lhe permitir.

Voam, sobre mim, duas catatuas catatónicas.
São três.
Três da manhã, entenda-se, o surrealismo tem o revés
De não poder trocar os pés pelas mães.
Pelo menos não sem avisar.
Não! A não ser para deixar de calças na mão o incauto leitor
Que, contando ler o que é normal e real,
Esqueceu que este poema é meu
E só vai aonde eu lhe permitir.

Voam, sobre mim, duas catatuas catatónicas.
São parte importante deste poema catártico.
E, se me fartar delas, pelo bem do clímax dramático,
Hão de sair com o estrondo de um canhão
E deixar, em seu lugar, minha nação.
Toda florida. Toda sorrindo.
Toda uma ilusão…
Toda cheia de belezas, num poema de incertezas.

Mas ainda voam, sobre mim, duas catatuas catatónicas,
Cativas neste cativeiro cruel, e de um calhorda,
À espera que se delas faça açorda
Ou que delas não se faça nada!
Que voem neste seu voo de coisa paralisada
Que o leitor as imagine como minha coroa dourada,
Minha beleza criada só para enfeitar,
Meu bocado de poesia endiabrada,
Minhas palavras que puxam a imaginação.

E hão de rodar sobre mim! Rodarão como as hélices e os moinhos.
Hão de viver aqui até eu deixar azedar todos os vinhos
Que criarei só para manter e embriaguez desta poesia.
Hão de deixar a vida e continuar voando mortas
Presas como marionetas, como coisas tortas que serão,
Como dois seres estropiados e escangalhados
Só por terem vivido tempo demais neste papel
Ou sem haver qualquer razão.


E eu, dono cruel, continuarei nesta limpeza
De mim.
Usarei as palavras que não têm outro fim,
E que às vezes guardo só por inútil avareza.
Usarei da mesma destreza que usei
Para prender duas aves tão inocentes,
Para prender também as mentes
Num poema sem razões,
Sem coerência,
Sem interpretações que, morrendo eu,
Lhe darão mil cabeças que não a minha.
Este poema é meu e não da minha vizinha,
Não do meu tio, não do meu pai ou de minha mãe
E nem de meu irmão é. Sem todos eles passa bem.
E vai só aonde eu lhe permitir.

Este poema é meu, e vai só aonde eu lhe permitir.
Este poema sou eu, e vou, só, aonde me permitir.

Este poema é meu, apesar de a poesia não ser.
Este poema ainda vai estar cá quando eu morrer.
Este poema não tem catatuas porque eu já não quero!
Como infante infeliz, como um príncipe austero
Que manda só porque gosta de mandar.
E, por tudo isto, por ser demasiado livre,
Tem este poema de acabar.
Tenho, neste poema, de acabar.
Por ser meu, por ser eu, por existir
E ir, só, aonde eu me permitir.

Vou findando. Vou fundando. Vou voar.
Rafael Cardoso Oliveira
sem citações

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Comunicado

Se fizesse diferença a alguém, dir-se-ia que estamos em 2015. Como a única diferença que faz é no dia que já passou - porque todos o vimos passar -, sigamos, só, em frente.

Comunicado

Hoje, o poeta pediu para informar que está ausente;
Que não há nada de muito premente ou importante
Ou que brilhe mais do que o que é constante,
E que, por tal, valha a pena poetizar.

Assim, vem este pequeno trecho de enfado
Desejar a todos quanto o lêem o bom bocado
De não terem trabalho nenhum.
Este comunicado é bom e acertado
E maldito seja quem nele vir mais do que nele há.
É só um comunicado comum.

Deixou-me, o próprio poeta, ainda, a seguinte mensagem:
“O fogo-de-artifício das palavras está extinto
Para não dar que fazer a quem pensa.”
Em P.S.: Diz ter, sobre a mesa, uma garrafa de vinho tinto
E a vaga sensação de humanidade que, há muito, não tinha.

Ou talvez seja humidade. Lê-se mal a última linha.

Rafael Cardoso Oliveira


"Beauty is truth, truth beauty - that is all
Ye know on earth, and all ye need to know."
John Keats em "Ode on a Grecian Urn"

sábado, 27 de dezembro de 2014

Exemplares

Sem muitas explicações que sejam alusivas a isto, à vida disto, ou ao momento "Dickens", que poderá aparentar pairar sobre a cabeça do sujeito poético, oremos.

Exemplares

Há poemas que leio de vez em quando.
Outros que lembro de quando em vez.
Mas há alguns que vêm mesmo ter comigo,
Ainda que me esconda.
Ainda que sejam três da manhã,
E tenha muito sono ou então muito café bebido.
Dou conta de que, a todos, já tinha lido
Mas que necessito sempre de uma segunda luz.

“Maria Amélia vai, lindamente assobiando,
Limpando pratas que não são dela, Maria.
Amélia, abençoada como a luz do dia,
Crocitaria, se fosse ave menos luzidia…
Mas canta só, qual rouxinol, que ainda não sabe
As mentiras que conta o menino António.
E, se o lacre brasonado não tem forma de demónio,
É só porque fica mal para os de fora.
O mereceria a crueldade e rudeza bem ocultadas
Por entre os molhos de rendas, pratas e pilhas de almofadas
Que Amélia vai limpando, de ignorante.

Todos sabem a que se dão as almofadas:
Ou a lutas de crianças enfadadas
Ou a tiros que, em silêncio, se querem dar.

Seu irmão Alberto,
(de Amélia, patrão,
De António, vago familiar)
É tão certo ser tão pouco certo
Como o brasão os faz a todos, por exemplar.
Gente ruim, mas que, em jeitos de ocultada,
Parece boa gente, parece crente e ajuizada
Mas só quando se olha de fora.”


“António Augusto não lida bem com citações.
Vive uma vida, agora, cheia de repelões e raspanetes…
E esquece sempre se são nabos ou rabanetes
Que lhe pediu a mulher, quando ainda lho confia.
Maldito homem que já não sabe sequer o dia,
Já não sabe que prosa quer, quando só escreve poesia.
E assim definha, e morre, e nem arde sequer
Que para arder há que ter, ao menos, combustível…
António Augusto é a fagulha indizível do que foi um dia.
Hoje é um ideal quando um dia foi um mote,
Hoje é um galope trôpego, do que um dia foi um bonito trote.
Maldita vida que (o) levou, tão exemplar.
E agora o poema dele não pode continuar.”


“O pequeno Pedro continua fitando a rua,
E sabe que passa o camião dos gelados,
Mas só daí a duas horas.
Pouco importa. Pedro é dado a estas demoras,
Porque gosta, também ele, de se demorar.
Gosta de cantar com o mestre Fernando lá da rua,
E gosta das canções do seu país…
“Pátria de indescritível sensação, outrora” dizem todos
E o petiz desanima e pensa que não sabe que hora foi,
Se é que Hora houve.
Gosta das canções do seu país mas mais da sua,
Porque sabe que ainda não vai condenada -
Qual velha que se atira do penhasco exasperada
Porque ninguém lhe elogia os cachecóis
Que tanto trabalho a fiar dão.

“País antigo, exemplar, de sensação!” – Pedro ouve sempre…
E sempre repara que nisto há um misto de verdade
E de aldrabice… Menino sereno, que na sua meninice,
Nem sabe mas há-de compor a Pátria nova.
Que brilhe e que ecoe e que vá onde tem de ir.
Por isso Pedro é só, mas a sorrir.”

E são assim os poemas que me vêm ter,
Batem-me à porta um dia ou outro,
De quando em vez, de vez num quando.
E eu, pai infeliz, tenho de os sempre receber,
Que os dei ao mundo, mas neles já não mando.
E, entre a mulher que limpa tudo mas não sabe
Quão profunda é a sujeira que lhe resta,
O velho esquecido que esqueceu sua bandeira
(ainda que fosse só poesia – que não presta),
E o menino que há-de parir Portugal,
Raia o meu dia. Acorda o mundo, mundanal.
São horas de ir:

Entalo a pistola no meu cinto
E, com uma almofada, das mais velhas, numa mão.
Digo que sou ladrão
Ou que, ao menos, poeta não sou.
E minto.
E vou.

Rafael Cardoso Oliveira


"Why do you doubt your senses?"
"Because," said Scrooge," a little thing affects them. A slight disorder of the stomach makes them cheat. You may be an undigested bit of beef, a blot of mustard, a crumb of cheese, a fragment of an underdone potato. There's more of gravy than of grave about you, whatever you are!"
Enbenezer Scrooge in "A Christmas Carol", Charles Dickens

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Para hoje

"Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D`un accordéon rance"

Para hoje

Para hoje reservei-te uma canção.
Um trauteio qualquer, um pedaço de mim.
A salvação que não atinjo ao ver-te assim
Distante, caminhando errante,
Dando aos passos o mesmo que destino
Que seria dar-lhes destino nenhum;
Rumo a um clarão azul e carmim
Que nenhum homem vê, porque não existe.
Estás tu aí longe e eu aqui triste.

Estou em poucos modos, com a barba por fazer,
Com quatro livros por ler e um já meio lido, meio esquecido.
Terei de recomeçar.
Recomeçar tudo para olhar de novo as mesmas palavras,
Não do livro, mas do que escrevo e quero dizer.
Terei de andar…
De novo e uma vez mais por esta terra enlameada
Que, da ferrugem que dos homens cai de fronte suada,
Não faz valer nada, e paga pouco a quem lhe diz
“Mulher, pátria, mãe ou meretriz
Quem és tu, que me pariste neste fim de tempo?”

Canção dos filhos jogados ao vento,
Salvos apenas na sensação e na vontade de este,
Este mesmo poema de destruição
Ser o poema do hoje

Hoje tudo se poderia curar e ferver e iridescer
Hoje todo o meu afazer é poesia!
Não há nada que me tire daqui!
Nada me tira nem me impede
De escrever a este país de bardos, que mal se mede,
O quanto de sua medida esqueceu.
Portugal dos pequeninos…
Que hoje arde entre os bardinos
E as bandarilhas e as bandeirolas
E os artistas e os artolas e toda aquela fruta,
Que nenhuma metamorfose das musas
Nem vistas agudas ou obtusas,
Fará menos filha da puta.

Porque as palavras de hoje são para se usarem todas
Até que o sarro lhes coma a articulação
E a genica dos sentidos.
Hoje gasto todos os olhos e os ouvidos e o poema não tem fim.
Vai rente à corrente sem marinheiros
Vai puxando a refrega e batendo nos pandeiros,
Vai batendo sempre contra as rochas,
Vai acendendo nos mineiros as mesmas tochas
Que permitem que se mine mais fundo.

Hoje o poema vai sempre em frente
E as velhas são todas salvas
E o ontem das mortes saltadas
É o hoje das mortes sentidas.

Portugal, estou farto de te cantar.
Estou imensamente farto de que não gostes de mim.
“Mulher, mãe, diabo, fera, musa, besta,
Pátria de negrume ou meretriz…
Quem és tu, se és meu país?”
Rafael Cardoso Oliveira

"Se não mudar o barco bate no rochedo, e vai no fundo como um brinquedo."


quinta-feira, 31 de julho de 2014

Mais dia, menos dia


Para ontem

Estico esta corda só um pouco mais.
Vejo-lhe os nós (e, às vezes, nós).
Vejo-me a sós.
Sinto-lhe a força e a fraqueza.
Que, de marujo bem treinado
Ou de bruxo manietado,
Não tenho senão a percepção…
Não tenho senão a ideia e a certeza
De não saber fazer o que eles fazem.

Estico esta corda só um pouco mais
E sinto-lhe os veios, descubro-a de novo.
Sinto que é a força que agarra todo um povo
Quando esse se não distrai a jogar um jogo qualquer…
Jogo da corda, por ventura, em que cada mulher,
Gritando entre mil puxões e repelões,
É mais forte que os homens rezingões
Que se melindram, e não puxam mais.
E anda assim o povo todo a repuxar-se
A aturar-se, a maltratar-se e a mudar-se
Porque a corda não chega p’ra si e p’rós demais.

Estico esta corda um pouco mais
E descubro que não chega p’ra meus filhos.
Por isso comprei meia dúzia de foguetes
(Coisa de feira e incapaz de correr bem);
Sei que lhes darão melhor serviço
Que a alegria pouca p’ra que serviriam
Se algum dia de alegria fossem feitos.
Podres rebentamentos de alegres preconceitos
Em que é suposto ser-se alegre na explosão
De uns carmins e uns verdes pouco atreitos
A pintar esta tristeza de nação.

Estico esta corda um pouco mais
E vejo que quase nem chega para mim…
Meu baraço invejado, meu caminho de fim
Para o pais sem fim/sem mim que sonhei vir ver um dia.
Que se rebentem todos estes foguetes de fingida alegria
Enquanto eu saltar deste cadafalso que é um madeiro
Corroído, puído, usado vezes e vezes e o verdadeiro
Fim de quem já nem fim almeja.

Se Portugal é um bolo, seja eu sua cereja.

Rafael Cardoso Oliveira

"O Homem que diz "dou" não dá, porque quem dá mesmo não diz."