sábado, 9 de agosto de 2008

O melhor poema de sempre

Bem, após mais um mês de ausência, estou de volta, primando, como se vê, pela humildade e falta de auto-estima. Penso que o título do post é esclarecedor o suficiente e, além disso, não me apetece falar muito. Vamos à acção!

O melhor poema de sempre

Pensar-se poderia que seria aqui, neste lugar,
Que se cantaria por formas perfeitas o a-cantar.
Talvez sim, senhores, talvez não, que também canções
Malfeitas, horríveis e d’horrores d’homens sem coração
Podem ser versos - nunca prosas -, belos versos d’arrepiar.

Seria então este papel pintado tudo menos vulgar,
Demasiado bom e sério, com os ouros do império e o brilhar
Do impropério em boca de mulher, tão mais delicada
Que o homem em que a poesia não é nada, nem os brilhos são.

São senão mentiras que ele diz sem fé nem prova e que ela,
Pobre tola, adora e renova a cada pulo mais vermelho do coração.
Também este poema é isso: uma mentira, um embuste e uma arma,
Uma tira de seda com que se vendam os olhos, um fármaco de ruindade
E escuridão. Uma aldrabice de um mau aldrabão.

E, como se disse, não sendo este o mais eloquente dos versos escritos,
Nem desses a sua mais brilhante composição, este pedaço de verbos malditos
E de substantivos adjectivados sem razão é o melhor poema e o mais possante,
Não por sê-lo em verdade mas por de impressionante só ter o excesso
De vaidade.

Mas há coisas tão mais vãs, tão mais cheias de maldade, que isto aqui,
Na sua louca prepotência e carência de humildade é bonito até…
É o meu grito de poeta frustrado, de homem ultrapassado
E sem coisas nem verdades novas, sem ideias nem novidades,
Sem novos bens ou novas maldades ou outras coisas que a poesia não tem,
São estes os versos malfeitos, horríveis e d’horrores d’homem apaixonado,
Como prosas esquecíveis e, nisso, incapazes d’arrepiar alguém.


Rafael Cardoso Oliveira


Melhor citação:

"Jules: Wanna know what I'm buyin' Ringo?

Pumpkin: What?

Jules: Your life. I'm givin' you that money so I don't hafta kill your ass. You read the Bible?

Pumpkin: Not regularly.

Jules: There's a passage I got memorized. Ezekiel 25:17. The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who, in the name of charity and good will, shepherds the weak through the valley of the darkness. For he is truly his brother's keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my brothers. And you will know I am the Lord when I lay my vengeance upon you. I been sayin' that shit for years. And if you ever heard it, it meant your ass. I never really questioned what it meant. I thought it was just a cold-blooded thing to say to a motherfucker before you popped a cap in his ass. But I saw some shit this mornin' made me think twice. Now I'm thinkin': it could mean you're the evil man. And I'm the righteous man. And Mr. 9mm here, he's the shepherd protecting my righteous ass in the valley of darkness. Or it could be you're the righteous man and I'm the shepherd and it's the world that's evil and selfish. I'd like that. But that shit ain't the truth. The truth is you're the weak. And I'm the tyranny of evil men. But I'm tryin', Ringo. I'm tryin' real hard to be the shepherd."


Jules - Samuel L.Jackson
Pumpkin/Ringo - Tim Roth
Pulp Fiction de Quentin Tarantino (escritor e director).

Over n'out

domingo, 6 de julho de 2008

Musa Inspiradora

Em momentos desinspirados escrevem-se coisas destas. A temática sempre é mais agradável, para os mais sensíveis. Para mim é-me indiferente, são cinco da madrugada, tenho mais em que pensar.

Musa Inspiradora

É hoje o dia de escrever à dos cândidos cabelos,

Dos olhos fundos, da boca encarnada e elegante,

À dos dedos longos, tez firme e mui brilhante

Que, quando no chão, apoiada nos cotovelos,

Balança os pés, encaracola mais os cabelos

E escreve poesia forte e fulminante.


Em sua alta pose de escritora é tão constante

A harmonia que exala dos seus magnos dedos,

A forma como breves deslizam pela folha

Desvelando esses sexuais segredos

De medos, de ousadias, de rituais, presos

Nessa bolha de sabão que são os sonhos,

Que são as vidas, que é luz

E a escuridão.


Tamanhos são seus olhos, tamanhos são,

Que minha mão quando se por eles vê observada

Não diz nada, cala a palavra e a inspiração

Expira-se e não volta mais.


Tais são os seus odores, são tais

Que me volta a inspiração em sonhos sensuais

Ou desejos que o homem em mim suplica.

Mas essa sede não se sacia de águas carnais

Antes de palavras em papel que o corpo não explica.


O corpo não quer saber da minha musa

Nem sequer o homem em mim,

Sou eu quem a mim se acusa

De, no fim, não ser só as minha ideias.


Só as minhas ideias são a minha musa…


(Di-las-ei feias?)


Rafael Cardoso Oliveira



Citação Inspiradora:

"Viver não é necessário, o que é necessário é criar."

F.Pessoa


--Ocorreu um erro e esta página deverá ser fechada imediatamente, tanto você como o bloguer já perderam tempo demais nisto--
--A Microsoft adverte que exposição prolongada a este tipo de blogue não é saudável--

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Perto

Sem muito a dizer. Mais um poema:

Perto

Não sentes uma música no fundo dos ouvidos,
Um torpor leve dos sentidos como que letargia
Fatal de um sono breve? Ouves, por certo, cânticos batidos,
Hinos a patriotas subidos e a vilões sem escrúpulos,
Os primeiros longe, os outros demasiado perto.

Há um cheiro carmesim, um cheiro fétido e antinatural,
Que, a mim, me queda desperto. E a ti? Não te diz nada?
Parece fedor de mortal morto que coberto vem de visceral
Liquido acre e frio e de uma pasta de verde vomitada.

Consegues ver? Sinto os meus olhos selados. E os teus?
De quantas maravilhas te deu Deus não era a que mais prezavas?
Os olhos com que olhando não olhavas, nem perscrutavas
Nada.

A boca seca que tens, de quem não entende a língua que fala,
Parece vazia hoje, ao contrário de cada dia em que se enchia
Das comidas do mundo e das maiores imundícies e baboseiras
Que, vomitante, dizia, (agora cala), cobrindo coisas verdadeiras
De uma doença qualquer, uma atrofia.

Tacteio o teu corpo e o sinto todo vulgar,
Cada pedaço meio desfeito mas tudo no seu lugar,
Tudo por ordem, tudo ajustado na milimétrica escala
Da podridão que assedia e empalha e empala
Todos quantos se dão a este gentil vivenciar!
É teu o som amaldiçoado!
É teu o cheiro apodrecido!
São teus os olhos externos!
É tua a boca vazia!
São minhas as mãos e tua vida em que nada ia!

Sê bem-vindo à Porta dos Infernos!

Rafael Cardoso Oliveira


Citação profunda:
"Diabo: Que cousa tão preciosa...
Entrai, padre reverendo!

Frade: Pera onde levais gente?

Diabo: Pera aquele fogo ardente
que nom temestes vivendo.

Frade: Juro a Deos que nom t'entendo
E este hábito no me vale?

Diabo: Gentil padre mundanal
A Berzabu vos encomendo."
Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente


Citação só de memória não querendo com isso os louros de uma memória boa mas sim os descontos, de parte dos caríssimos leitores, por qualquer erro (à data do post isto era verdade, agora só é mentira porque já conferi e corrigi todos os erros, que eram só 2). Digam o que vos aprouver e reclamem o que entenderem.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Para não deixar em preto

Bom, hoje, neste post, neste momento, neste dia 27 de Maio do ano da graça de 2008, eu, Rafael, autor deste blogue, resolvi fazer uma prosa. Sim senhor, uma prosa, mas uma especial: em primeiro lugar será curta e em segundo não dirá nada que se aproveite.

A verdade, cá para nós, é que o problema está em eu escrever muito. Eu sei. Eu canso e, cansando, canso-me também. Eu frustro e, frustrando, sinto-me frustrado também. Por isso, hoje, e apenas hoje, se fará aqui um texto que a mim me não diz nada e que vai contra todas as normas de conduta que eu criei para este local. Se o engenheiro pode fumar e apenas fretou o avião, é mais que óbvio que eu, que sou dono e criador absoluto disto, posso subverter as regras. Eu aqui sou a voz do além. Não têm vocês a noção do que isso me agrada.

Acabei de decidir que este texto será uma reflexão sobre o trabalho efectuado até agora neste blogue. Duas palavras: Muito pouco. Entrego muito pouco do meu tempo a isto, muito pouca da minha paciência e do meu ser. Disto tiro algum prazer, é verdade, não o nego, mas há aqui mais frustração que qualquer outra emoção.

O que me leva a não desistir destas, chamemos-lhe, com a devida benevolência pelo calão, "vidas", é o respeito pelo que eu faço. O meu propósito não é nobre, os meus poemas são só palavras e os meus textos nada têm de artistico ou especial, é verdade, mas, penso eu, isto é o melhor de mim, da minha invasão e percepção do mundo. Só o partilho porque considero que o devo partilhar, ainda que possa ser apenas comigo e com meia dúzia de gatos pingados que até acham graça a isto.

Mas, vem agora a verdade, o que se quer mesmo é que alguém desconhecido odeie ou ame este lugar. Pode parecer estranho, mas, por estes dias, quero que quem não devia ter nada a dizer sobre este blogue se manifeste. Isso sim seria a prova de que não estou aqui sozinho.

Citação de última hora:
"Are you watching closely?"
The Prestige

Considerando o seu monitor um plano de Argand, com a origem O no seu centro, desloque o seu cursor no sentido do vector Z2+Z1, sendo Z2=2+2i e Z1=1+i, até à cor.

Se ainda aqui está é sinal que ou não domina os números complexos, ou ainda pensa que vou dizer alguma coisa que se aproveite. Não, o prometido é devido.

domingo, 18 de maio de 2008

Nem um dia sem uma linha

Palavras p'ra quê? (expressão perfeitamente incongruente neste contexto e no que se segue). Aqui vai:

Nem um dia sem uma linha

Vem a mão contrariada ao funesto encontro
Com a morte disfarçada em papel branco e claro,
Que tudo se compõe para que haja inspiração
E há um ar raro, uma magia qualquer e sedução.
Mas dói cada tendão, o corpo todo, a maquinaria,
A mão contrai-se, remete-se ao silêncio, foge…
Hoje não é dia de poesia.

O universo está parado e aborrecido, e as leis
Da física e da metafísica são todas matemáticas iguais,
Não se mataram crianças para não morrerem reis
Nem se atentou contra coisas mais mortais.
O dia fulvo está absolutamente adormecido
Calculado ao ponto de dor e de dor nenhuma,
Se há quem leia isto, veja o mundo, e não tenha morrido,
Então, por certo, é tão morto que morte alguma o quereria.

Veja-se a merda de tudo isto, senhores, e dela a escassez.
Ainda me lê? “Hoje estamos fechados, é segunda quinta-feira do mês.
E Hoje não é dia de poesia.”

Rafael Cardoso Oliveira


Citação do dia:
"Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida,
Não fosse senão poesia?
- Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia."
Álvaro de Campos (a.k.a. Fernando Pessoa)

C'est tout!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Fora

Já que a sensibilidade de um fere a sensibilidade de muita gente e, por razões sensíveis, não podem ser publicados versos (ou muito tardam em sê-lo), far-se-á aqui a publicação. Não tem este poema o intuito de ofender ninguém, ou não teria intuito algum (releia-se a frase se não apreendida numa primeira leitura). Vamos ao que interessa:

Fora

A carne engana a luz, dissolve a sombra, oculta a escuridão,
Priva os veros olhos de encontrarem na pilha de excremento
Algo que brilhe, que valha a morte, algo mais que a podridão
Reverberante em cada traço do corpo, em cada movimento.
Embebedam-se os sentidos com vinhos estragados e usados
Nega-se o eu, vomita-se o eu, é-se consoante os aceitados
Cadáveres estuporados que pendurados vão nas bancadas…
Inconsciente e cega a noite espreita: os corpos suam de temor,
Acende-se um cheiro frio de varejas comendo carnes mastigadas.

Frio gélido de horror de cada um; os mortos andam e fingem as vidas,
Erebus mostra as faces ensanguentadas, o rosto amaldiçoado,
A morte vem, alimentada deles, verte-se a alma p’las f’ridas

Corvos banqueteiam-se das cabeças caídas,
O pó é sangue, é de sangue a estrada,
Estou cansado…

Rafael Cardoso Oliveira

Citação de força:
"If you want my strength, you must pay the price"
Yojimbo, FFX

Ao xis branco em rubro fundo!

sábado, 19 de abril de 2008

Poética Perversão

Poética Perversão

Eu sou de rimas perversas, de vozes perversas.

Escuto atentamente os sussurros nocturnos que amedrontam
O mundo e os seus diurnos habitantes: as pessoas, nas diversas
Vidas que levam, que arrastam, que, ofegantes, têm de cumprir…

Há um sorriso amarelado quando o ar gelado corta por entre os ramos
Do arvoredo sinistro, abandonado(,) na noite sem luz alguma, e eu,
No meio daquela bruma, daquela chuva, abro os olhos. Volto a abrir…

E nada. Nada além da espuma que sai das mandíbulas de cães raivosos
Que o negrume ferem com olhos avermelhados, dentes venenosos,
A força bruta da musculatura própria do medo e da indefinição.

Também os meus olhos são vermelhos de escuridão,
E há alturas de medo, mas é meu, hoje, o sorriso estranho,
Há dias de medo, hoje não, poética perversão…

Hoje eu ganho.

Rafael Cardoso Oliveira

Citação estranha:
"Now it's the time to choose,
DIE and be free of pain,
or LIVE and fight your sorrow"
Auron, FFX

Tidus: I'm sorry I couldn't show you Zanarkand.

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