sexta-feira, 10 de junho de 2016

Dia de Portugal - Tarde Modesta

Sem tempo para revisões de forma (ou reformas).


Dia de Portugal  - Tarde Modesta

Sentada à mesa farta de cor e farta de falar
Está Sofia, mulher de Baltazar e mulher só.
Farta de cantar ao pó e de contar migalhas,
Pensa da vida como de um conjunto de acendalhas
Demasiado frouxas para lhe dar um qualquer lume.

Sofia subiria até ao mais baixinho cume se as costas não doessem,
Se a vida fosse difícil mas não verdadeiramente insuportável,
Fosse o ar respirável e os seus pulmões inflassem de alegria
E não de lágrimas ante cada tareia e cada dia
Em que sente que, em verdade, a vida é muita areia
Numa praia a que se não conhece o fim ou o fundo.
Sofia gosta do mundo mas gostava mais do mar.
Gosta de ver, de observar mas já não gosta de fazer.
Está gasta de fazer, e Baltazar a faz ver que ser mulher
É eternamente cair e eternamente estar doente.
Eternamente sentir-se de tarde na vida
E saber que se chega sempre tarde ante o telefone que toca,
O arroz que queima, o filho que chora ou o pai que morre.

Sofia viveria numa toca se essa toca se chamasse “outra vida”.
Assim, vive só em Portugal.
Perdida, modesta e desmilinguida.
De galochas fortes mas com a água até ao peito

No pantanal.
Rafael Cardoso Oliveira

quinta-feira, 10 de março de 2016

D'amor irreal

Sem grandes revisões nem meta linguística (por sugestão de substituição de "metalinguística"): isto.

De’amor irreal

O meu amor tem os dois pés no chão
E o coração cheio de senãos,
Ou uns senãos cheios de coração.
É livre como as aves agrilhoadas
E tem a tendência a dar as mesmas voltas
Que elas,
Ainda que só em gaiolas imaginadas,
Dão.

O meu amor sabe medir os meus nadas
E mentir os meus dias para dizer que são bons.
Pinta, com deleite tangível e com todos os tons,
Os céus cinzentos das manhãs iguais.
Sabe-me as manhas e saboreia-me as mamas
Com toda a sua devoção espiritual
E o mesmo sentido de dever carnal.

O meu amor não se cala um segundo em mim,
E qualquer segundo amor que eu tenha,
Sendo ou não sendo seu, ele partilha.
Fervilha, doente, a cada crepitar da nossa lenha
E é por isso que cada amor dele
É coisa minha.
A nossa coisa é termo-nos nos termos
Em que as pessoas teimam em não se ter.

O meu amor sabe amar-me quando eu não sei viver.
E junta aos meus copos a mais o seu esplendor e raça
Teatrais.
Naturais ondas do nosso oceano de compreensão
Em que há barcos a naufragar e a chegar na mesma proporção
Das mortes e beijos de regresso do mundo real.

Por isso amo o meu amor assim:
Às vezes carnal e secamente,
Outras vezes só co'a mente,
E ainda outras vezes
É só ele que gosta de mim.

Rafael Cardoso Oliveira

                

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Amantes (ou o das mordidas que escolhemos)


Aguça-me os olhos como o lápis
Que pinta e ponteia o teu mundo,
Adoça-me os lábios com terra
E mandioca fria.
Tolhe-me os males das mãos por cortesia
E os calos dos pés por incerteza.
Questiona-me - com questiúnculas -
A minha rudeza feroz
E geme
Sempre que tiveres de dizer adeus.
Treme sempre que nos amarmos
Mais que a deus
(Que, a correr bem, será todos os dias.).
Afia-me como afias a espada da língua
Em meus ouvidos encerados,
Cheios de recados que não recordaria
Se não fosse o meu amor por ti.

Cala-me a boca só com beijos
E nomeia comigo todos os percevejos
Da nossa cama mortal.
O Ícaro, o Sísifo, o Homero e o teatral
Álvaro. O Campos, o Ernesto e o honesto
Hélder. E também Jobim Júnior (ou o Segundo).
Perfeitos percevejos do nosso mundo
Que é mundo de desejos
Como de lâmpadas fundidas.
Descansadas, como nós, entre duas vidas
Que são o estar fundido e o ser trocado.

Tu, e só tu, que és meu mundo escarlate às escondidas,
Dá-me a coragem de rejeitar-te nas horas mais apetecidas
Só para te ter quando te aborrece e também a mim.
Como amigos distantes que a distância enfim
Junta, julga, joga, ginga, gere e mata
Numa geringonça que só dá tiros pela culatra
E que é a ópera em que o nosso amor opera.
Ópera de operário, sem luzes e sem porquês,
Que encheu a sala só na vez que vês agora,
De Alcides, Franco, Roberta, Hemingway, Natalie e Saramago
As pulgas amargas que, juntos, deitámos fora.


Rafael Cardoso Oliveira

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Às três pancadas


De poemas em frente está toda a gente
Cansada.
Às três pancadas escritos constantemente;
Às três pancadas batendo em retirada;
Às três pancadas, na peça teatral da vida,
Dizendo lugubremente a sua linha ensaiada.
Às três pancadas: tudo.
Às três pancadas: nada,
Que nem tudo o que não nada,
Flutua para evitar morrer.

Às três pancadas abrimos a porta à morte
E com umas pancadas mais fechamos o caixão.
Nosso caixão e de todos os demais.
Puxando, se por dentro,
Ou de empurrão, se por fora vamos
Ou se por fora vão
As nossas mãos e as nossas intenções.

Às três pancadas declaramos amar,
E usamos de mais umas quantas para reforçar o amor.
Ignoramos as do peito, que o coração não bate nunca,
A não ser por três pancadas a mais de quando em vez.
Damos umas pancadas e umas bofetadas – também duas ou três –
Quando os reveses da vida são melhores que nós
E quando a voz se cansa de bater nos três cantos
Que geralmente têm os nossos dias,
As nossas salas e as cidades que habituamos.

Habituamos as coisas que habitamos
Às três pancadas.
Cumprimos os cumprimentos e os comprimentos
De mãos dadas com a indiferença da repetição.
E, medíssemos menos ou cumpríssemos menos,
Todo mundo perderia esta aleatória relação
De ser vivo e velho só porque se deixou aqui chegar.

De três em três pancadas temos fome e morre uma criança.
De três em três pancadas lembramos que temos um nariz que sempre vemos.
De três em três pedradas sentimos o ar que nos infla e desinfla todo o dia.
E de três em três pancadas nos lembramos porque odiamos poesia.
Porque está em nós a regra de deixar o mundo ir
Abater-se sobre os seus joelhos e rezar a um deus qualquer,
E a poesia não deixa isso. Não nos deixa a isso.
De três em três pancadas atraiçoamos a nossa dieta
E comemos broa abjecta com o pior chouriço
Enquanto, às três pancadas recordamos
Que a vida são três trancadas
No cu duro do mundo.


E cremos - porque precisamos - neste desfile de ignomínia e idiotia,
Que são como o sal do pão e a verdura de cada dia,
Fazendo bem e mal às três pancadas que somos
Ratos feitores do mais adorado raticida.
E assim vamos decidida e indizivelmente em frente,
De três passos em três,
Vendo eu o que tu não vês e incapaz de te compreender.
Vendendo, eu, o que tu não sabes negar nem aceitar.
Poetizando umas ideias para perder tempo e dinheiro,
E repetindo prosa fraca que nos finja iluminar
Enquanto cai da mesma cinza no mesmíssimo cinzeiro.
Para chegarmos a ver que o teu novo é o meu velho
Na roda da fortuna, que só tem um algarismo.
E enquanto Atlas empina o mundo num joelho
Saltamos todos, voamos todos, do mesmo abismo.

(Valha-nos tal colossal malabarismo)
Rafael Cardoso Oliveira



domingo, 13 de dezembro de 2015

Ode das Ostras

Tenho em mente um prato de quimeras,
Ou tenho, em minha frente, um desafio.
Um desatino qualquer, um dia sombrio,
Mas mais sombrio do que a sombra mais merece.
Tenho, ante mim, a mente sobre um prato de quimeras
E todas as esperas que esse prato me oferece.

Tenho, nele e dele, todas as minhas relutâncias
E as minhas ânsias gastas de ignorante.
Os meus dias de amante menos fulguroso.
Tenho deste prato um medo pavoroso
E uma vontade langue de lhe saber os sentidos.

É um prato cheio de ostras imaginadas, entenda-se.
Ou mesmo de ostras normais, se ajudar à poesia.
O afrodisíaco – dizem - que até ao mais frio homem aquecia,
E para a mais fria mulher fria era eficaz como soía.
Só aos poetas esta sensação não dá em nada.

Como ostras com a mesma pena pousada dos dias todos,
E o sol e os modos que costumo ter ainda cá estão.
Como ostras sabendo de antemão o que fariam
Mas sentido sempre que nunca, nunca hoje o farão.
Produto risível de um qualquer charlatão
Que me enganou e prometeu cura mais que certa
Para esta mente deserta com um prato cheio
De um bivalve simples - daqueles de abrir a meio –
Para lhe sorver a suculenta carne divinatória.

Uma carne para iluminar a oratória e as moratórias demoradas,
Para encarnar e criar ainda mais fadas
Que iluminem a minha escrita cada dia mais desfalecida.
Só podem ser estas umas quantas ostras estragadas,
Que não surtem efeito nenhum na minha vida.
Continuo murcho e estático, e longe poeta ineficaz.
Olhando o clarão lilás e dizendo que é bonito, sim senhor!
Mas sem mais que diga,
Sem um único clamor mais, 
Sem uma única linha que dure amanhã.

Talvez haja nadas que valham isto,
Talvez este seja o espoletar da poesia.
Amanhã há mais um dia que,
Com a sorte que venho tendo,
Será um outro dia qualquer.
(Vamos indo, vimos vendo)
Comendo ostras como quem come umas torradas,
Insistindo em rimas sinistras e erradas
Quando eu não gosto de ostras sequer.

Rafael Cardoso Oliveira


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Entre eu e tu

Sem queixas nem desculpas.


Entre eu e tu

Entre nós dois há a espada presa por um fio
De teus cabelos, que confio ser um fio forte.
Entre eu e tu há um mar, que é o desafio 
Por mentir entre indicar o sul e o norte.

Entre nós dois há a imensidão silenciosa
Que é só silêncio – ele mesmo – assim pousado
Como se por uma moça indecorosa,
Que sabe tão mais de poesia que de prosa
Que abusa dele mesmo estando ele calado.

Entre eu e tu há um nós que é uma parede.
Há esta rede, a trama, a teia; o sermos sós.
Entre nós dois há a mesma fome e a mesma sede,
E grita, internamente, a mesma voz.
Giramos, em eixos iguais, assim opostos,
Quais dois bonecos, manipansos sem justiça,
Que, num qualquer castelo de brincar
São de girar sempre e sempre nos seus postos.
Rodando em sua real grandeza de cortiça,
De metal, de madeira, de “tanto faz”,
Temos o azar da descoordenação por condição
E deste trocar o nosso olhar sempre fugaz.
Cada um roda na sua direcção,
Cada um olha o seu coração a nu.

Cai a espada e rasga o poema, e a minha mão
Sangra por escrever sobre eu e tu.


Rafael Cardoso Oliveira

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Espantalho Canalha

Às vezes, atribuímos um defensor mesmo aos campos onde não cresce coisa alguma.


Espantalho Canalha

Nos dias em que tenho sono e frio
E arreganho, ainda assim, os dentes
No sorriso mais fraco e mais sombrio
Que o dia me merece,
Tenho pena, mas sei que acontece,
De te atirar o meu espantalho canalha.

O das horas gastas a escrever sem sentido,
O do medo que tenho de não ser lido,
O da falta de paciência para ver o dia gasto,
O da violência que é perceber-me que me basto
Quando sempre achei que jamais me bastaria.

É triste atirar-te este espantalho canalha.
Melhor tivesse e melhor atiraria.

É um boneco velho e com pouca palha e, essa, fraca.
Está permanentemente de ressaca e não sabe beber vinho.
Cheira mal e não espanta um estorninho mais valente.
Não tem frio mas também não sabe ser quente
E, sobretudo, não tem sobretudo nenhum.

É o boneco ciente do meu dia igual todos os dias
E é uma maneira diferente de espantar as melodias
E as quimeras voadoras nas quais não quero pensar.

É triste atirar-te este espantalho canalha.
Só o faço para não me chatear.

E se te melindrar no processo, pouco importa.
Coloco um outro espantalho a bater à tua porta
Com um ramo de flores vulgar e palavras piores ainda.
Um que te implore um perdão indiferente
E que se finja de doente sem te ter.
Que suba e te beije a fronte empedernida
E que te chore por vida, quando a dele falta, claramente.

É triste atirar-te este espantalho canalha.
Mais triste é fazê-lo nova e novamente.

Pior é saber de forma tão vincada
Que mesmo este poema vale nada
E que é, ele mesmo, esse espantalho.
Uma poesia nua e empatada.
Palavras como uma papa enlatada e fria
Que eu não serviria ao pior cão que me tivesse.

E só tenho mesmo este espantalho.
Que tal parece?

E aqui fica: espetado e espantado por servir;
A julgar todos os versos que ninguém vai repetir;
E a olhar o meu campo árido de ideias e ideais.
Aponta - braços abertos - dois quaisquer pontos cardeais
E os destinos incertos que não consegue olhar.
Espera eternamente o teu abraço que o conforte
Ou um feiticeiro que lhe dê a morte,
Ou o dia mais feliz da minha vida,
Ou um pássaro que lhe prometa amizade.

É triste atirar-te este espantalho canalha…
Mas é que dói sempre menos que a verdade.

Rafael Cardoso Oliveira