Após mais de 3 meses de ausência, já sentia saudades de vir aqui para poder escrever o mais livremente que me é permitido. Isto claro, dentro dos parâmetros naturais do bom gosto, da educação e do respeito pelo próximo. Mas hoje já é muitíssimo tarde para que a conversa que terei convosco noutros momentos deste blogue se alongue por mais do que algumas linhas. Linhas essas que, por meu talento, nunca dizem absolutamente nada de jeito. É bom saber que mantenho as qualidades do antigamente, quando as coisas ainda custavam escudos, ou quiçá mesmo sal. Aqui vai disto, senhores, stand your ground:
Canção dos Mudos
Disseram-me hoje que te escrevesse uma canção.
E há aqui um problema muito óbvio,
Não da minha intenção ou não de ta escrever,
Mas da maneira como me devo dirigir a ti.
Se fosse algo para ler somente, seria tão mais fácil…
Mas tem de ser algo bom e certo para ouvir também.
Propus-me logo a escrever-te, hoje, uma canção.
E não sei sequer o seu verso inicial:
Se começar com “Meu amor, meu coração”, vexo-me.
Se disser que te odeio, minto, e disso me sinto mal.
Olho a tua foto em busca de que ela me diga
O que eu não consigo dizer-te a ti.
Procuro nela, nem sequer uma canção,
Mas um assobio, um trauteio, uma cantiga,
Ao menos qualquer coisa que, uma vez mais,
Diga! Que fale! Que me inspire um bocadinho…
Que ter de recorrer aos diminutivos já me custa…
(Como me custa a rima pobre feita com jeitinho)
Onde se compra a fórmula de fazer canções?
Digam-me, por favor, por ela darei a paga justa
De admiração e respeito e maioritariamente… admiração.
Vá lá, eu não tenho dinheiro… Pagarei em preces!
Orações à padroeira de Nossa Senhora que o valha!
A uma qualquer, pagarei tudo o que me calha pagar
Até ao mais misérrimo tostão!
Hoje disse que te escreveria uma canção.
E não consigo sequer falar.
“Vem agora, menina, que as palavras
São finalmente caladas e finais.
Vem só agora que troam as guitarras,
Nos acordes da balada em que agarras
Os céus de luar e noite escura.
Vem por agora, menina, com a mais
Bonita rosa nesse teu gesto de frescura,
Diz que as demais palavras que te diga
São a mais, que são só aperto da loucura,
Que me queres sem que te diga nada.
Vem para sempre ficar formosa em formosura
Tal que as ninfas te invejem, minha fada,
Que há canções que te cantem em cada uma
Das setas que dardejem na guerra!
E dos hinos ao vento que troam no fim!
Sê minha, por favor, um só momento,
Meu amor, meu coração, minha terra.
Hoje, que te amo, canta p’ra mim.”
Rafael Cardoso Oliveira
Citação cantada:
"Meu amor,
Parece que agora vou seguir sem ti
Subir e descer,
Correr na lama e voar outra vez...
Sei muito bem onde quero chegar
E sei que não há tempo a perder
Que a tua voz me possa encorajar!
Meu amor,
Agora não fiques para ai a dormir...
Um fato de marinheiro
Não chega para se entender o mar.
Espero que aprendas bem a remar
E espero que a luz do teu farol
Te possa sempre iluminar! "
Jorge Palma
"You cannot burn me! I do NOT have time to combust!"
É com surpresa, repetidas vezes tenho dito isto mas continua a ser verdade, que aqui venho hoje escrever-vos. Não por que mereçais, não por isso, que ninguém merece o castigo de ser vergastado pela minha nigérrima chibata duas vezes num espaço tão curto de um ano tão recém-chegado e muito menos depois de uma laceração e martírio tão longos como foram os do post que precede ao corrente; o anterior, portanto. No entanto, tenho algo novo a mostrar. D'um novo que já é algo velho e muito usado, quase tão bom como dizer que algo numa loja de antiguidades é uma novidade ou que há, por ironia, novidades num museu. Estou abismado como me acometi, por um lado, e permiti, por outro, a fazer este post, sabendo bem do trabalho que o outro deu a escrever. Cairão as Resoluções de Ano Novo em saco roto, ficarão em águas, ironicamente, de bacalhau, até a alturas próximas de um próximo nascimento de cristo, que , segundo consta dos escritos, nunca foi sequer consultado para a aprovação democrática e justa desta coisa do bacalhau ou até mesmo do perú. Mas esta temática já dista alguns parsecs daquilo que me traz aqui, uma composição poética entre um Camões e um Pessoa, ambos mensageiros da grandeza de um Portugal que, ou se perdeu, ou já perdido andava mas ainda havia esperança. Eu sou um esperançado.
O Mote Aqui começa onde acabará o novo mundo, D’areia clara donde se, claro, estende Imponente e temeroso e sitibundo O chão salgado para’a gente que o desvende. E mais escuro não pode ser o negro fundo, Negrume tal que qualquer mortal se rende, Mas o não teme quem domá-lo quer, Que de Portugal nunca’é mortal nem é qualquer!
E quanto o sonho diste é tanto quanto O luso peito sabe ter de navegar, Que no mesmo grito abafado e triste pranto Onde se guerreou até morrer ou sem matar, Não cabe mísera essa glória, o frio espanto, Dos que se deixam, vivos-mortos, conquistar. Não é de Portugal quem se assim rende E que às memórias de Henriques, tolo, ofende.
E quantos são, de pena em punho, a cantar, Por trovas várias, chamando a nós os tempos idos Não careces, ó Portugal, do que falar Nem de quem cante com voz e punho decididos, Pudera quem te assombra ter os brilhos e o brilhar Das esferas que te não deram os deuses, recolhidos. Que se não abriu o mar em caminhos sem sofrer Aos escolhidos que se fizeram escolher!
Rafael Cardoso Oliveira
Citações exortativas:
"’Sperai. Cai no areal e na hora adversa Que Deus concede aos seus Para o intervalo em que esteja a alma imersa Em sonhos que são deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura Se com Deus me guardei? É O que eu me sonhei que eterno dura É Esse que regressarei.”
Fernando Pessoa, Mensagem
"Xerxes: There will be no glory in your sacrifice. I will erase even the memory of Sparta from the histories! Every piece of Greek parchment shall be burned. Every Greek historian, and every scribe shall have their eyes pulled out, and their tongues cut from their mouths. Why, uttering the very name of Sparta, or Leonidas, will be punishable by death! The world will never know you existed at all!
King Leonidas: The world will know that free men stood against a tyrant, that few stood against many, and before this battle was over, that even a god-king can bleed. "
300, Zack Snyder
“Mr. Creedy(while shooting at V): DIE! DIE! WHY WON’T YOU DIE?!... Why won't you die?...” V: Beneath this mask there is more than flesh… There is an idea, Mr.Creedy. And ideas are bulletproof.”
V for Vendetta, Waschowski Brothers
"Maximus: [removes helmet and turns around to face Commodus] My name is Maximus Decimus Meridius, commander of the Armies of the North, General of the Felix Legions, loyal servant to the true emperor, Marcus Aurelius. Father to a murdered son, husband to a murdered wife. And I will have my vengeance, in this life or the next."
É sobejamente engraçado estar aqui, no dia já 3 de Janeiro de 2010 a escrever o que vou escrever. Todos, por certo, estão recordados desses tempos há muito idos em que o inglês nos era ensinado no ensino público (ou privado) como forma de nossa tão vasta instrução e em que nos era pedido, por alturas do ano novo, que escrevêssemos aquilo que seriam as New Year Resolutions. Geralmente 10, não mais do que isso, eram simples frases que discorriam sobre o que queríamos mudar no mundo ou no nosso mundo no ano que se avizinhava; nada de complicado, nada de mais bonito, nada de tão Miss America. Para salvação dos males e expiação de todos os pecados, as pessoas tendiam, e ainda bem, a focar-se no que queriam para os seus pequenos mundos e abstinham-se do discurso enfadonho e gasto da paz no mundo e do acabar com a guerra e com a fome, por não estar ao nosso/seu alcance executá-lo ali, por ser hipocrisia pura e dura e porque, em boa verdade, a mudança tem de começar em nós e, no nosso egoísmo de desejarmos tudo para nós, há que desejar que também mudemos. Ámen.
Mas não é de moral ou ética que venho falar, que isso é também aborrecido por estas horas e achei por bem, hoje, nestes primórdios de um tão novo ano que se nos apresenta, brindar-vos com algumas Revoluções ou Resoluções de Ano Novo. "Isto porquê?", perguntam vocês com a liberdade que aqui não vos assiste mas que eu perdoo, ao que eu respondo porque defini o objectivo sincero de fazer o maior post de sempre, mas dividido em fragmentos. 10 para ser exacto. 10 porções de morte em pó a que basta juntar água, naturalmente, para ingerir sob a forma de uma potente solução aquosa. São 10 temas que não têm grande relação entre si, ou mesmo nenhuma, 10 coisas de que me lembrei de falar. Isto deverá bastar como explicação inicial. Apertem os cintos e agora com a voz do homem dos carrinhos de choque do tão afamado Senhor de Matosinhos: "Mais uma viagem, mais uma aventura. Insira a fichinha na ranhura e não saia enquanto os carrinhos se encontrarem em movimento."
10. A Resolução "Musical": Il Divo e Apolo
Isto é rigorosamente verdade. Existe, senhoras e senhores, um grupo musical que se denomina Apolo e que é aquilo a que se tem chamado de "Os Il Divo portugueses". Alegria. Satisfação. Felicidade. E acima de tudo ironia, é tudo quanto vos tenho a dizer. Meus caros, os Il Divo não são uma boa ideia; e uma adaptação de algo que não é bom, não poderá, probabilisticamente falando, ser melhor. E isto assusta-me.
Eu sei que há uns quantos de vós que estão tão temerosos quanto eu, isto é efectivamente muito mau. E o pior é reparar nas similitudes entre os dois grupos. Se repararem bem, o individuo mais à direita na foto dos Il Divo, que sorri e que doravante designaremos por Ramon pela sua nacionalidade espanhola, tem uma cara de matador inigualável por qualquer ser que já tenha, que esteja ou que venha a pisar esta terra. É um sacador natural e a sua sensualidade não conhece o limite do aceitável. Podem procurar no google quantas fotos vos aprouver que em todas elas o seu charme latino está presente. Note-se também as suas sobrancelhas, que compõe sempre, pelas posições estranhas que adoptam o seu quadro de 'El Matador'. Poderia agora discorrer igualmente sobre o equivalente português, senhor mais à direita na foto dos Apolo, mas não me atrevo aquela expressão de saque está quase a funcionar em mim. Nunca se equipara à de Ramon, porque é impossível, mas é de uma qualidade soberba. Gostaria ainda de ressalvar a riqueza expressiva e emotiva do indivíduo mais à esquerda na foto dos Apolo, é simplesmente extra ordinário; penso, sempre que contemplo, em choque e admiração, esta foto, que quem um dia disse que uma imagem vale mais que mil palavras, certamente viu um ancestral deste senhor, por tão rica linguagem não falada que sai de cada poro da criatura. Lamento, meus caros, eu não consigo suportar estas adaptações de músicas com o pretexto de tornar a música "clássica e erudita" mais próxima das pessoas menos instruídas. Isto não é música clássica, simplesmente por não o ser. Respeito quem nutre algum gosto por ouvir isto, mas só não arranjem desculpas destas. É ridículo. E até o Ramon o sabe.
9. A Resolução do Comodismo: O Estado Laico
Será esta uma resolução curta, que deverá atingir como um dardo envenenado os corações dos ateus e dos agnósticos, dos não crentes, dos crentes não praticantes, dos crentes que achavam que criam mas afinal não criam assim tanto, enfim, todos os que crêem em algo diferente daquilo em que o que o nosso Estado dito laico, por definição, acaba por crer. Vivemos num país maioritariamente mais que cristão, católico e temos, com isso, todas as consequências inalienáveis que isso nos traz. Temos um catolicismo a que nos acomodamos tanto que festejamos todos o Natal (e não me venham dizer que não festejam o Natal, mas sim aquela festa pagã a um qualquer deus) por ser moda, por ser natural que assim o façamos, por não ser ideologicamente execrável fazê-lo e porque é bom receber presentes. Os feriados religiosos são ridículos num Estado dito leigo, não fazem sentido, mas fazem jeito e fazem pontes também. É mais uma daquelas revoluções de ano novo que nunca acontecerá, tal como quando a maior parte dos fumadores promete que vai deixar o seu vício, ou a maior parte das pessoas com óculos diz que vai tentar usar lentes de contacto, ou a maior parte das pessoas obesas que vai começar a fazer dieta. Marca-se a hora do inicio do ano para tudo, mas escrevendo a lápis numa agenda que se vai deitar fora ainda a semana não terá conhecido o seu fim. Temos os feriados porque é bom tê-los, não porque sabemos o que eles são, muitas das vezes, não fazemos nada porque é moralmente inaceitável lutar contra o nosso direito major de não fazer nada, enquanto cidadãos deste Portugal tão de nada feito e tão em nada assente com as suas "nalgas" gordas, suadas e peludas.
8. A Resolução da Inutilidade: Os twitter's, hi5's, facebook's e afins
Eu, sobre esta matéria, já me pronunciei longamente. Tudo o que disse em relação ao hi5 estende-se quase excelentemente ao facebook. Mas o twitter, quando soube que, basicamente, é um local onde escreves textos de um máximo de 140 caracteres a que tão patetica e parvamente se chamam "tweets" a dizer coisas como, ou reportando sobre, o estado do tempo nas Cataratas do Niagara ou no pico mais agreste dos Himalaias, fiquei em choque. São SMS's por computador, na internet, e pior que serem é o orgulho com que admitem sê-lo. "Sim! Realmente nós somos uns gajos que tivemos esta ideia brilhante de fazer crer 10 milhões de pessoas que escrever uma SMS e enviá-la por telemóvel para 140 pessoas é parvo, mas se o fizeres na internet, é um tweet!" Duas palavras: Ri-dículo.
7. A Resolução da Insuficiência: O ter de escrever sobre 10 temas
Sou um insuficiente, mas este foi um dos melhores temas que aqui surgiu, eu bem poderia dissertar sobre coisas interessantes ou mesmo giras, mas não; estou a falar dos Il Divo, dos Apolo, do twitter, do hi5 e de uma série de coisas que me fazem muita comichão. A melhor parte é que nem sequer sei bem o que dizer quanto a este número 7, que aqui se encontra apenas como bote salva-vidas e como mais umas quantas linhas de tédio de morte para o leitor mais voraz, mais audaz, ou então mais idiota.
É melhor seguir em frente, porque a temática já vai longa para algo que não diz nada de nada.
6. A Resolução da Pena: Os programas de televisão do Fim de Ano
Pena, meus caros, pena, muita pena e muita vergonha alheia. Não admira que os Maias (não os do Eça, os gajos da América do Sul) tenham previsto o fim do mundo lá para 2012; já sabiam eles, e aposto que o têm gravado em algum dos seus edifícios em jeito de hieróglifo uma mulher berrando muito alto enquanto algo que primeiro se pensou ser uma mulher junto dela se pavoneia; digo pensou-se porque depois se decifrou que seria Manuel Luís, o Goucha, que se assumiu como homossexual há pouco tempo. Quanto a isto nada contra, assim já andamos prevenidos porque ele até era daqueles que nunca levantou qualquer tipo de suspeita, no tempo do bigode, claro está. Mas, por favor, por piedade, este tipo de programas de música e galas no final do ano tem de acabar. É simplesmente demasiado doloroso. Especialmente com a tia Júlia, mulher que admiro pelo seu sadismo, pela sua voz de rouxinol e pela sua fermosura. Falo do sadismo dela simplesmente porque é admirável como a Tia Arlinda, mulher que foi muito dada enquanto jovem e que muito sofreu com a morte dos seus 7 maridos todos por causas naturais e do seu gato Jeremias Alfredo, na semana passada, e que está agora com uma "trembose" e que sofre "hiptensom" e a nossa querida Júlia é capaz de ouvi-la até lhe dar na gana e ter de pedir à senhora, que está ali a pôr a nu a sua alma virginal uns minutos, que interrompa o temporal de desgraças para ela ir dar dinheiro no "Cara ou Coroa". Quando volta, já lá não está a tia Arlinda, para alegria da tia Júlia, a nossa Oprah.
Tinha de andar com este requiem, esta música de morte, para os mortos e muito mais para os vivos. Não tenho muito a dizer quanto a isto, esta música seduz-me mesmo. Mata-me. E faz-me pensar sempre, inevitavelmente, na coisa mais bonita da linguagem. O som. Como seria o português se só o ouvíssemos soar, sem o perceber? Eis algo que nunca saberemos se estamos a ler (ou a escrever) este texto. Por isso é que o latim me dá cenas. Porque é, talvez, o mais próximo que consigo chegar da total incompreensão, e do som bonito das palavras, só por o terem. O som.
Não sou capaz de deixar este 5 sem mais uma parte desta missa: Rex Tremendae!
As traduções acompanham a letra em latim nos vídeos, nada mais há a declarar aqui.
4. A Resolução do Boneco Animado: O Team Fortress 2
Isto é realmente o culminar do pensamento, justo e certo, de que realmente este post é longo e maioritariamente desinteressante. Quanto ao Team Fortress 2 não consigo falar muito, é um jogo emocionante para quem o não conhece, e mesmo para quem o conhece. Deixo-vos apenas o link para o blog TF2 para a parte dos videos, que é a melhor. E já agora, uma fala de cada personagem:
"Looks like they'll have to glue you back together...IN HELL!"
The Demoman
"Hmmph mmhp mmmph!"
The Pyro
"I am ze ubermensh!"
The Medic (médicos nazis é que é!)
"If you order now I'll give you a second beating absolutely free."
The Scout
"LEETTLE MAN STEAL OUR CART!"
The Heavy
"You know what you and Jane Austen have in common? You're both dead women."
The Sniper
"If you managed to kill them I asure you they were not like me..."
The Spy
"You are a spineless worm! You are a mistake of nature! You are walking vomit!"
The Soldier
3. A Resolução da Comida: O New York Crispy
Porque eu queria comer... e comi. Não é grande coisa ou então, na expressão popular que passei a adorar, "Não é lá grande pistola."
2. A Resolução Improvável: Um espetáculo provavelmente bom.
Ora aí está uma das poucas resoluções que proponho que vale a pena realmente; é incrível. Teatro de improvíso no Brasil. Genial é o mínimo que se pode dizer, uma vez mais funcionam os videos no final desta página que vos ajudarão a encontrar esse grande espaço humorístico que é o Improvável. Não tenho muito a dizer porque já estou cansado, muito cansado mesmo, e não sei mais o que escrever.
1. A Resolução das Resoluções: O Ano Novo
Aqui chegamos ao cerne da questão.
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
E...
Na verdade, meus caros, não acontece nada. Não se lança um foguetão, não implode um prédio, não se ganha a final de uma competição aguerrida. Nada. Chega o zero e nada. E as pessoas festejam loucamente! Mas festejam o facto de os outros estarem a festejar, isto é pura pressão do grupo, é a pressão dos foguetes e do álcool a dizer para festejarem. Os islâmicos estão em 1390, o ano novo é daqui a dois meses e nestas contagens decrescentes não lhes sucede nada; e não, não é por não poderem consumir álcool. Na realidade esta contagem ainda se torna pior com a Júlia Pinheiro a contar, porque aí uma pessoa conta que aconteça MESMO alguma coisa. Como um piano a cair na cabeça dela, eu sei lá. Não é que eu deseje nada de especialmente nefasto à senhora, nada disso. Apenas gostava que no ano novo, na passagem de ano acontecesse realmente algo que dissesse que há algo diferente. Até lá, a passagem de ano é um mito, e o pessoal islâmico é mais inteligente que nós, que não cai nesta esparrela comercial. E o melhor é saber que há os acreditados nas teorias da conspiração e os desacreditados no aquecimento global que acreditam que a passagem de ano é algo, uns com fé demais outros com fé "de menos".
0. Resolução do Fim: Uma resolução para libertar
Um poema. Porque 10 é par e as coisas giras são ímpares. E só aqui acontece algo no zero...
Sê completamente livre
Está liberto, sê liberto, vive de liberdade.
Bebe tudo quanto possas e esquece o que tiveres,
Muda, mata, mutila, move, morre, morde, marca,
Que tu és tudo, a vida é tudo e além desta comarca
É só verdade o tudo e nada que quiseres.
Sê um homem ou mulher de mil mulheres,
De mil homens, de mil sonhos, de mil lideranças;
Sê o terror austero que fulmina, cruel, as esperanças
E a sombra quente que afaga os refugiados.
Sê o mar que afoga os inocentes e que faz naufragar
Os condenados e os mortos nas mesmas areias
Indecentes, ardentes, de pedra escura.
Sê a tua igreja de pedra e pensamento, batina e estrutura,
Sê o hábito e a morte que ele(a) leva dentro, a devoção,
A piedade e a quietude e a chacina e o memento
De alta e santíssima e devassa escuridão.
Sê tudo e de tudo nesta libérrima prisão
De não ter rédeas nem escolha fácil, antes total
Escolha irracional impulsiva e de coração
Que desmerece por ser humana e tão fatal.
Mas não importa, não penses, não reflictas
Um segundo: podes deitar tudo a perder.
Que a liberdade não está em ser nem parecer,
Querer ou não querer, matar ou não morrer.
Diz ao mundo que te quer morto que (não) tens vontade!
Naquele tempo da tecnologia inexistente, em que Jesus pregava em terras de Nazaré, não havia, como por certo sabem, telemóveis. Tem esta afirmação toda a preponderância; é toda ela uma máxima indissolúvel de razão e todo o mote deste post que se vai, pacientemente, estendendo. Jesus não possuía telemóvel. A todos quantos mui pacientemente vão seguindo esta pequena dissertação sobre a tecnologia nos tempos idos do filho do altíssimo, seja esse altíssimo quem for, rogo-vos um pouco mais de paciência ainda. O suspense é uma daquelas características essenciais num post da dimensão do que se avizinha, principalmente quando não há, quanto à temática, muito a dizer. Nesse supradito tempo ido, Jesus espalhava a palavra do senhor, o amor ao próximo e a paz e tem isto tudo a ver com o tema que me traz aqui, neste dia 22 de Novembro do ano da graça de 2009. Antes de mais, note-se a profunda referência encapuzada ao romance do senhor Camilo, o Castelo Branco, no título deste post, algo propositado mas inócuo em toda a sua extensão para o assunto sobre o qual venho discorrendo; há ressalvas que devem sempre fazer-se.
(Dar-se-á agora o que parece ser uma mudança de assunto completamente desconexa que apanhará o público desprevenido, ou melhor, e como popularmente se diz, com as calças na mão ou com a famosa boca na botija, expressões de uma beleza tal que não é possível deixá-las conscientemente de fora de uma didascália deste calibre. Luz forte sobre as primeiras linhas.)
Estava eu, na imensidão de tempo que tenho à minha disposição, sossegadamente a ler mensagens e a enviar umas quantas, passatempo pelo qual não nutro qualquer tipo de interesse particular, leia-se, interesse igual àquele que o comum dos mortais nutre, quando me deparo com uma secção do menu de Mensagens que me vem surpreender com o facto de eu ter Items Gravados, items esses que consistem de 11 modelos de mensagem. Até aqui tudo bem, parece-me razoável e até amável por parte da empresa de software do meu telemóvel querer poupar-me ao trabalho de escrever mensagens que só me fatigariam mental e fisicamente, acho que eles são mesmo o que o mundo designa, mui comummente, das pessoas das quais se diz "aquela pessoa é muito humana"; definição ou ideia que, se formos a esmiuçar, não faz qualquer tipo de sentido, a não ser que se assuma por oposto de humano o "cínico" que se refere a, como sabem, cão. Aquela pessoa ser muito humana é um facto que, parecendo que não, é bastante banal e se se assume por humanidade uma qualquer qualidade que faz das pessoas mais altruístas e caridosas, bem se pode dizer que isso não é a definição de humanidade, simplesmente porque a humanidade não é caridosa ou altruísta. É um paradoxo engraçado, na realidade todas as pessoas são extremamente "humanas" simplesmente porque somos, na generalidade, uns cabrões ímpares, cada um à sua maneira, daí o ímpares. Qualquer referência que nos equipare mais aos suínos ou aos cães me parece mais ajustada, enquanto animais que somos, e por nunca chegarmos a atingir o estado tão bonito e utópico de Humanidade. A humanidade é assim, há que engoli-lo.
Mas voltando à temática que aqui me trouxe e deixando o drama, 11 modelos de mensagem; Nada há como explorá-los! São eles:
"Estou atrasado. Chego às" "Estou em reunião. Telefono às" "Agora estou ocupado. Telefono mais tarde." "Chegarei às" "Reunião cancelada." "Vejo-o às" "Vejo-o dentro de" "Telefonar" "Parabéns." "Obrigado." "Também te amo."
Espero que já haja alguém tão chocado como eu, tão avassalado por uma destas mensagens como eu. Vamos analisar:
7 destas mensagens são claras referências à vida profissional da pessoa que possuí o telemóvel. Estar ou não estar, marcar ou desmarcar encontros, telefonemas e reuniões parece-me algo que um indivíduo faz durante bastante tempo enquanto funcionário de uma qualquer empresa com situação financeira que se adeqúe a possuir um telemóvel ou mesmo a ter reuniões. E mesmo não sendo esse o caso, poderá ser uma qualquer pessoa um membro de uma sociedade secreta e ter "reuniões" e "encontros" que poderá marcar e desmarcar a seu bel-prazer e com uma celeridade consideravelmente maior devido a estes modelos. E só deus sabe como isso é útil nas sociedades secretas.
A mensagem "Telefonar" faz-me um pouco de confusão. Penso que ninguém, no seu estado de sanidade mental perfeito, envia uma mensagem a uma outra pessoa que começa com um verbo no infinitivo. Simplesmente não faz sentido: "Telefonar ao José para saber se ele vai à caça hoje." Soa muito mais a Lembrete do telemóvel do que a mensagem que alguém envie a alguém, por mais humano que seja ou pareça ser.
Temos depois as mensagens "Obrigado" e "Parabéns" que sem dúvida só dão mostras da educação de uma pessoa e da sua organização para saber quando é que algum dos seus amigos celebra mais uma primavera ou teve algum acontecimento marcante na sua vida. São modelos um pouco inúteis na medida em que é simplesmente mais fácil e rápido escrever toda a mensagem que se segue ao "Obrigado" e ainda mais especificamente ao "Parabéns"; que ninguém me venha dizer que algum dia recebeu uma mensagem simplesmente a dizer "Parabéns" e, caso tenha acontecido, o mais que sinto é pena pelo pobre infeliz a quem tão sórdida sorte veio abençoar.
E somos chegados finalmente ao cerne da questão, ao âmago do horror, ao centro da comichão.
"Também te amo."
Ora bem, este modelo pressupõe muita coisa, e tudo o que ele pressupõe me ultraja. Suponhamos que uma pessoa recebe uma mensagem a dizer simplesmente "Amo-te." basta ir aos modelos de mensagem do seu telemóvel e, sem pensar muito no assunto, enviar uma bela mensagem predefinida a dizer que o amor é correspondido. Sendo assim, numa situação meramente hipotética, quando alguém recebesse uma mensagem do seu amado(a) a dizer "Precisamos de falar..." seria de esperar que houvesse uma mensagem predefinida onde se leria "O problema não és tu, sou eu." ou então "Foi bom enquanto durou." ou algo similar. Além de tudo isto, a mensagem "Também de amo" pressupõe que a pessoa venha a receber a mensagem "Amo-te" o que nunca acontecerá caso ninguém ame essa pessoa, como a mais pura lógica indica. Isto só vem acentuar a gravidade da questão! Quer dizer que a Dona Lurdes, solteirona, que nunca viu, mas sempre pensou e ansiou ver um homem do qual gostasse a fazer coisas marotas com ela, se chegar a comprar, um dia, um telemóvel destes com o que foi "ajuntando" do pouco que o salário da fábrica de sardinhas enlatadas em molho de escabeche lhe permite, e se chegar a explorar esta pequena pasta de mensagens modelo, sentir-se-á imensamente frustrada por nunca ter tido ninguém que a amasse à conta daquele furúnculo estranho que ela tem na orelha direita! Está Dona Lurdes muito agastada psicologicamente e ainda lhe cai mais esta em cima, o não ser amada. Nunca ninguém lhe enviará uma mensagem a dizer "Amo-te" e aquela mensagem modelo ficará perdida dos anais da (sua) história. Prepara-se Dona Lurdes para por o baraço à volta do pescoço e pendurar-se por um ramo da macieira da sua humilde casa de modo a acabar com a sua triste existência, até que eu a paro e a mato instantaneamente com palavras que vos dirão "Lurdes jaz aqui, no pó vocabular". Deve-se esta paragem não à bondade da minha alma mas mais à agudeza da minha pena que vos quer livrar da imagem de Lurdes a tentar, infrutiferamente, pôr termo à sua imaginada existência acabando estatelada no chão, frustrada porque o galho não aguentou os seus meros 104 quilogramas e um furúnculo de brevíssima existência escrita.
Tal como Lurdes, muitas pessoas nunca poderão utilizar essa mensagem e, se se pôde , em tempos, processar o McDonalds por apenas oferecer comida de qualidade tal que fosse nefasta para todos os seus inocente e iludidos consumidores e ganhar o processo, também será possível processar esta companhia de software por danos psicológicos severos causados a todos os mal-amados descobridores dessa mensagem "Também te amo". Uma indemnização no valor de todas as vezes quantas essa mensagem modelo não será enviada, num tempo de paixão ardente e fogosa, é o mínimo que um indivíduo pode pedir. Sendo o Amor esse fenómeno tão de hormonas quanto pensamos que é de emoções, muitas seriam essas mensagens que, num tarifário barato, a 12 cêntimos por mensagem, e numa época de muita e tresloucada paixão (300 mensagens de amor/ dia) se enviariam. Daria uma fortuna de fazer inveja ao Patinhas, com todo o respeito que por ele mantenho.
E quem me diz a mim que não foi assim que metade do mundo que pensamos controlar o negócio do petróleo enriqueceu? Sim, isto porque por lá (refiro-me ao mundo islâmico) as paixões podem ser várias ao mesmo tempo, como é sabido, e enviar a mensagem "Também te amo" a apenas uma das 7 esposas seria mais um motivo para originar quezílias desnecessárias na família! Quantas vidas e lares o amor predefinido já não terá destruído, meus caros?
E é chegada finalmente a altura de relacionar isto com o início do post:
Jesus não ia querer isto...
Citação de Revolta:
"I too am not a bit tamed, I too am untranslatable I sound my barbaric YAWP over the roofs of the world."
é meu dever informAr-vos de que, apesar do título deste post ser "Códice" este pequeNo parágrafo introDutório nAda tem de mensagem codificada, Só para prevenir que alguém com um espírito mais aventureiro, À la indiana jones, ou com demasiado tempo livre nas suas mãos, como é o meu caso, quisesse Procurar uma mensagem que, desde o início deste post assumi seR inexistente. O que mais me impressiona é que, dito isto, eu tenho a mais profunda Certeza de que há, neste momento, um caro leitor que, mUnido da sua faca de mato de desbRavar imensAs florestas e cerrações vocabulares, se atirou com a sua camisa já esfiapada e ensanguentaDa amarrada Em volta da testa para o meio da dita amazónia das palavras desconhecidas. de Que servem os avisos, senhores? Se me ignoram até aqueles que, de livre e espontânea vontade, vêm até este lUgar... enfim, àquele leitor solitário que ainda me lÊ (?):
Segue-se mais um poema, que é o que me dá mais gozo fazer e como as mensagens secretas são sempre moda nada como misturar o que me é querido com algo profundamente comercial. Sou o Dan Brown da poesia! Assumindo, com o epíteto, a gritante vertente de fantasia e embuste que, a mim, assenta primorosamente. Porque é giro trapacear-vos; e acreditem que é a coisa mais rigorosa que posso dizer, é simplesmente giro.
Aqui vai disto:
Códice
Muitas letras, em formas discretas e soturnas, escorrendo,
Escorregando mesmo aba’xo da lama do mundo, escondendo,
Negando a sua significação; de costas na parede quando o facho
Sentinela passa uma, outra e outra vez… sem perceber a respiração
Arquejante dos vocábulos escondidos, atrás das esquinas mais perto...
Gemendo e suando aterrorizados, mordendo os lábios assustados
E só têm por certo aquela discrição que lhes dá sua forma esguia,
Mais gordos fossem e alguém os veria…
E na estreiteza sub-humana dos seus eixos, na sua fineza de lados,
Se dobram quando o índex meio curvado os sublinha sem pintar,
Com a força que fazem por não respirar quando o olho passa sem olhar
Outra vez e outra vez, como em uma anterior e fútil investida
Nada lhe grita a mensagem principal. Não lhe aponta, por leal, a escondida.
Dá o dedo voltas às páginas, gasta o papel e erode lentamente a tinta
Ignorante de que o quadro que a tela dá a ver esconde o que ela tem(!)
Do outro lado, do avesso, por dentro da fortaleza que o quadro pinta
(A mensagem já passou, olhaste-a bem?)
Rafael Cardoso Oliveira
Citação Encriptada:
"Talent hits a target no one else can hit; Genious hits a target no one else can see."
Arthur Schopenhauer
"There is only one diference between a madman and me. I am not mad."
Salvador Dali
Promise not to bleed on my suit and I'll kill you quickly...
The Spy