É sobejamente engraçado estar aqui, no dia já 3 de Janeiro de 2010 a escrever o que vou escrever. Todos, por certo, estão recordados desses tempos há muito idos em que o inglês nos era ensinado no ensino público (ou privado) como forma de nossa tão vasta instrução e em que nos era pedido, por alturas do ano novo, que escrevêssemos aquilo que seriam as New Year Resolutions. Geralmente 10, não mais do que isso, eram simples frases que discorriam sobre o que queríamos mudar no mundo ou no nosso mundo no ano que se avizinhava; nada de complicado, nada de mais bonito, nada de tão Miss America. Para salvação dos males e expiação de todos os pecados, as pessoas tendiam, e ainda bem, a focar-se no que queriam para os seus pequenos mundos e abstinham-se do discurso enfadonho e gasto da paz no mundo e do acabar com a guerra e com a fome, por não estar ao nosso/seu alcance executá-lo ali, por ser hipocrisia pura e dura e porque, em boa verdade, a mudança tem de começar em nós e, no nosso egoísmo de desejarmos tudo para nós, há que desejar que também mudemos. Ámen.
Mas não é de moral ou ética que venho falar, que isso é também aborrecido por estas horas e achei por bem, hoje, nestes primórdios de um tão novo ano que se nos apresenta, brindar-vos com algumas Revoluções ou Resoluções de Ano Novo. "Isto porquê?", perguntam vocês com a liberdade que aqui não vos assiste mas que eu perdoo, ao que eu respondo porque defini o objectivo sincero de fazer o maior post de sempre, mas dividido em fragmentos. 10 para ser exacto. 10 porções de morte em pó a que basta juntar água, naturalmente, para ingerir sob a forma de uma potente solução aquosa. São 10 temas que não têm grande relação entre si, ou mesmo nenhuma, 10 coisas de que me lembrei de falar. Isto deverá bastar como explicação inicial. Apertem os cintos e agora com a voz do homem dos carrinhos de choque do tão afamado Senhor de Matosinhos: "Mais uma viagem, mais uma aventura. Insira a fichinha na ranhura e não saia enquanto os carrinhos se encontrarem em movimento."
10. A Resolução "Musical": Il Divo e Apolo
Isto é rigorosamente verdade. Existe, senhoras e senhores, um grupo musical que se denomina Apolo e que é aquilo a que se tem chamado de "Os Il Divo portugueses". Alegria. Satisfação. Felicidade. E acima de tudo ironia, é tudo quanto vos tenho a dizer. Meus caros, os Il Divo não são uma boa ideia; e uma adaptação de algo que não é bom, não poderá, probabilisticamente falando, ser melhor. E isto assusta-me.
Eu sei que há uns quantos de vós que estão tão temerosos quanto eu, isto é efectivamente muito mau. E o pior é reparar nas similitudes entre os dois grupos. Se repararem bem, o individuo mais à direita na foto dos Il Divo, que sorri e que doravante designaremos por Ramon pela sua nacionalidade espanhola, tem uma cara de matador inigualável por qualquer ser que já tenha, que esteja ou que venha a pisar esta terra. É um sacador natural e a sua sensualidade não conhece o limite do aceitável. Podem procurar no google quantas fotos vos aprouver que em todas elas o seu charme latino está presente. Note-se também as suas sobrancelhas, que compõe sempre, pelas posições estranhas que adoptam o seu quadro de 'El Matador'. Poderia agora discorrer igualmente sobre o equivalente português, senhor mais à direita na foto dos Apolo, mas não me atrevo aquela expressão de saque está quase a funcionar em mim. Nunca se equipara à de Ramon, porque é impossível, mas é de uma qualidade soberba. Gostaria ainda de ressalvar a riqueza expressiva e emotiva do indivíduo mais à esquerda na foto dos Apolo, é simplesmente extra ordinário; penso, sempre que contemplo, em choque e admiração, esta foto, que quem um dia disse que uma imagem vale mais que mil palavras, certamente viu um ancestral deste senhor, por tão rica linguagem não falada que sai de cada poro da criatura. Lamento, meus caros, eu não consigo suportar estas adaptações de músicas com o pretexto de tornar a música "clássica e erudita" mais próxima das pessoas menos instruídas. Isto não é música clássica, simplesmente por não o ser. Respeito quem nutre algum gosto por ouvir isto, mas só não arranjem desculpas destas. É ridículo. E até o Ramon o sabe.
9. A Resolução do Comodismo: O Estado Laico
Será esta uma resolução curta, que deverá atingir como um dardo envenenado os corações dos ateus e dos agnósticos, dos não crentes, dos crentes não praticantes, dos crentes que achavam que criam mas afinal não criam assim tanto, enfim, todos os que crêem em algo diferente daquilo em que o que o nosso Estado dito laico, por definição, acaba por crer. Vivemos num país maioritariamente mais que cristão, católico e temos, com isso, todas as consequências inalienáveis que isso nos traz. Temos um catolicismo a que nos acomodamos tanto que festejamos todos o Natal (e não me venham dizer que não festejam o Natal, mas sim aquela festa pagã a um qualquer deus) por ser moda, por ser natural que assim o façamos, por não ser ideologicamente execrável fazê-lo e porque é bom receber presentes. Os feriados religiosos são ridículos num Estado dito leigo, não fazem sentido, mas fazem jeito e fazem pontes também. É mais uma daquelas revoluções de ano novo que nunca acontecerá, tal como quando a maior parte dos fumadores promete que vai deixar o seu vício, ou a maior parte das pessoas com óculos diz que vai tentar usar lentes de contacto, ou a maior parte das pessoas obesas que vai começar a fazer dieta. Marca-se a hora do inicio do ano para tudo, mas escrevendo a lápis numa agenda que se vai deitar fora ainda a semana não terá conhecido o seu fim. Temos os feriados porque é bom tê-los, não porque sabemos o que eles são, muitas das vezes, não fazemos nada porque é moralmente inaceitável lutar contra o nosso direito major de não fazer nada, enquanto cidadãos deste Portugal tão de nada feito e tão em nada assente com as suas "nalgas" gordas, suadas e peludas.
8. A Resolução da Inutilidade: Os twitter's, hi5's, facebook's e afins
Eu, sobre esta matéria, já me pronunciei longamente. Tudo o que disse em relação ao hi5 estende-se quase excelentemente ao facebook. Mas o twitter, quando soube que, basicamente, é um local onde escreves textos de um máximo de 140 caracteres a que tão patetica e parvamente se chamam "tweets" a dizer coisas como, ou reportando sobre, o estado do tempo nas Cataratas do Niagara ou no pico mais agreste dos Himalaias, fiquei em choque. São SMS's por computador, na internet, e pior que serem é o orgulho com que admitem sê-lo. "Sim! Realmente nós somos uns gajos que tivemos esta ideia brilhante de fazer crer 10 milhões de pessoas que escrever uma SMS e enviá-la por telemóvel para 140 pessoas é parvo, mas se o fizeres na internet, é um tweet!" Duas palavras: Ri-dículo.
7. A Resolução da Insuficiência: O ter de escrever sobre 10 temas
Sou um insuficiente, mas este foi um dos melhores temas que aqui surgiu, eu bem poderia dissertar sobre coisas interessantes ou mesmo giras, mas não; estou a falar dos Il Divo, dos Apolo, do twitter, do hi5 e de uma série de coisas que me fazem muita comichão. A melhor parte é que nem sequer sei bem o que dizer quanto a este número 7, que aqui se encontra apenas como bote salva-vidas e como mais umas quantas linhas de tédio de morte para o leitor mais voraz, mais audaz, ou então mais idiota.
É melhor seguir em frente, porque a temática já vai longa para algo que não diz nada de nada.
6. A Resolução da Pena: Os programas de televisão do Fim de Ano
Pena, meus caros, pena, muita pena e muita vergonha alheia. Não admira que os Maias (não os do Eça, os gajos da América do Sul) tenham previsto o fim do mundo lá para 2012; já sabiam eles, e aposto que o têm gravado em algum dos seus edifícios em jeito de hieróglifo uma mulher berrando muito alto enquanto algo que primeiro se pensou ser uma mulher junto dela se pavoneia; digo pensou-se porque depois se decifrou que seria Manuel Luís, o Goucha, que se assumiu como homossexual há pouco tempo. Quanto a isto nada contra, assim já andamos prevenidos porque ele até era daqueles que nunca levantou qualquer tipo de suspeita, no tempo do bigode, claro está. Mas, por favor, por piedade, este tipo de programas de música e galas no final do ano tem de acabar. É simplesmente demasiado doloroso. Especialmente com a tia Júlia, mulher que admiro pelo seu sadismo, pela sua voz de rouxinol e pela sua fermosura. Falo do sadismo dela simplesmente porque é admirável como a Tia Arlinda, mulher que foi muito dada enquanto jovem e que muito sofreu com a morte dos seus 7 maridos todos por causas naturais e do seu gato Jeremias Alfredo, na semana passada, e que está agora com uma "trembose" e que sofre "hiptensom" e a nossa querida Júlia é capaz de ouvi-la até lhe dar na gana e ter de pedir à senhora, que está ali a pôr a nu a sua alma virginal uns minutos, que interrompa o temporal de desgraças para ela ir dar dinheiro no "Cara ou Coroa". Quando volta, já lá não está a tia Arlinda, para alegria da tia Júlia, a nossa Oprah.
5. A Resolução da Música: Tuba Mirum Spargens Sonum!
Tinha de andar com este requiem, esta música de morte, para os mortos e muito mais para os vivos. Não tenho muito a dizer quanto a isto, esta música seduz-me mesmo. Mata-me. E faz-me pensar sempre, inevitavelmente, na coisa mais bonita da linguagem. O som. Como seria o português se só o ouvíssemos soar, sem o perceber? Eis algo que nunca saberemos se estamos a ler (ou a escrever) este texto. Por isso é que o latim me dá cenas. Porque é, talvez, o mais próximo que consigo chegar da total incompreensão, e do som bonito das palavras, só por o terem. O som.
Não sou capaz de deixar este 5 sem mais uma parte desta missa: Rex Tremendae!
As traduções acompanham a letra em latim nos vídeos, nada mais há a declarar aqui.
4. A Resolução do Boneco Animado: O Team Fortress 2
Isto é realmente o culminar do pensamento, justo e certo, de que realmente este post é longo e maioritariamente desinteressante. Quanto ao Team Fortress 2 não consigo falar muito, é um jogo emocionante para quem o não conhece, e mesmo para quem o conhece. Deixo-vos apenas o link para o blog TF2 para a parte dos videos, que é a melhor. E já agora, uma fala de cada personagem:
"Looks like they'll have to glue you back together...IN HELL!"
The Demoman
"Hmmph mmhp mmmph!"
The Pyro
"I am ze ubermensh!"
The Medic (médicos nazis é que é!)
"If you order now I'll give you a second beating absolutely free."
The Scout
"LEETTLE MAN STEAL OUR CART!"
The Heavy
"You know what you and Jane Austen have in common? You're both dead women."
The Sniper
"If you managed to kill them I asure you they were not like me..."
The Spy
"You are a spineless worm! You are a mistake of nature! You are walking vomit!"
The Soldier
3. A Resolução da Comida: O New York Crispy
Porque eu queria comer... e comi. Não é grande coisa ou então, na expressão popular que passei a adorar, "Não é lá grande pistola."
2. A Resolução Improvável: Um espetáculo provavelmente bom.
Ora aí está uma das poucas resoluções que proponho que vale a pena realmente; é incrível. Teatro de improvíso no Brasil. Genial é o mínimo que se pode dizer, uma vez mais funcionam os videos no final desta página que vos ajudarão a encontrar esse grande espaço humorístico que é o Improvável. Não tenho muito a dizer porque já estou cansado, muito cansado mesmo, e não sei mais o que escrever.
1. A Resolução das Resoluções: O Ano Novo
Aqui chegamos ao cerne da questão.
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
E...
Na verdade, meus caros, não acontece nada. Não se lança um foguetão, não implode um prédio, não se ganha a final de uma competição aguerrida. Nada. Chega o zero e nada. E as pessoas festejam loucamente! Mas festejam o facto de os outros estarem a festejar, isto é pura pressão do grupo, é a pressão dos foguetes e do álcool a dizer para festejarem. Os islâmicos estão em 1390, o ano novo é daqui a dois meses e nestas contagens decrescentes não lhes sucede nada; e não, não é por não poderem consumir álcool. Na realidade esta contagem ainda se torna pior com a Júlia Pinheiro a contar, porque aí uma pessoa conta que aconteça MESMO alguma coisa. Como um piano a cair na cabeça dela, eu sei lá. Não é que eu deseje nada de especialmente nefasto à senhora, nada disso. Apenas gostava que no ano novo, na passagem de ano acontecesse realmente algo que dissesse que há algo diferente. Até lá, a passagem de ano é um mito, e o pessoal islâmico é mais inteligente que nós, que não cai nesta esparrela comercial. E o melhor é saber que há os acreditados nas teorias da conspiração e os desacreditados no aquecimento global que acreditam que a passagem de ano é algo, uns com fé demais outros com fé "de menos".
0. Resolução do Fim: Uma resolução para libertar
Um poema. Porque 10 é par e as coisas giras são ímpares. E só aqui acontece algo no zero...
Sê completamente livre
Está liberto, sê liberto, vive de liberdade.
Bebe tudo quanto possas e esquece o que tiveres,
Muda, mata, mutila, move, morre, morde, marca,
Que tu és tudo, a vida é tudo e além desta comarca
É só verdade o tudo e nada que quiseres.
Sê um homem ou mulher de mil mulheres,
De mil homens, de mil sonhos, de mil lideranças;
Sê o terror austero que fulmina, cruel, as esperanças
E a sombra quente que afaga os refugiados.
Sê o mar que afoga os inocentes e que faz naufragar
Os condenados e os mortos nas mesmas areias
Indecentes, ardentes, de pedra escura.
Sê a tua igreja de pedra e pensamento, batina e estrutura,
Sê o hábito e a morte que ele(a) leva dentro, a devoção,
A piedade e a quietude e a chacina e o memento
De alta e santíssima e devassa escuridão.
Sê tudo e de tudo nesta libérrima prisão
De não ter rédeas nem escolha fácil, antes total
Escolha irracional impulsiva e de coração
Que desmerece por ser humana e tão fatal.
Mas não importa, não penses, não reflictas
Um segundo: podes deitar tudo a perder.
Que a liberdade não está em ser nem parecer,
Querer ou não querer, matar ou não morrer.
Diz ao mundo que te quer morto que (não) tens vontade!
Mata-te, arrisca-te, come-te, priva-te, goza-te, desperta-te
E vive de liberdade!
…liberta-te…
Rafael Cardoso Oliveira
Citação Resoluta:
"Breathe the free air again, my friend.[...] Too long you have sat back in the shadows..."

