quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Uma questão de interpretação...

Caro(s) leitor(es),

É com muito gosto que aqui venho hoje e com um orgulho desmedido porque ainda não passou um mês desde o meu último post e encontrei mais uma coisa com que o(s) posso atormentar. Pudera a felicidade ser algo assim tão fácil como chagar a cabeça às pessoas e haveria muito boa gente que a poderia vender engarrafada; a felicidade engarrafada, entenda-se, não a chatice engarrafada que essa já há de sobra e não há quem a compre (Vanish Oxy Action Intelligence Crystal White, alguém?).
Mas bom, o que me trás aqui não é a felicidade de quem quer que seja nem, por oposição, a infelicidade de ninguém; estou hoje aqui, às 6 da manhã, não porque sou um rapaz madrugador que tem de ir levar o rebanho a pastar ou apanhar hortaliças a esta hora, ou muitas outras coisas que as pessoas decentes e trabalhadoras fazem mas que a mim não me concernem de todo. Estou aqui pelo simples facto de ainda não me ter ido deitar, o que está a deixar quer os meus olhos, quer os meus neurónios à beira da revolta. Seria uma explicação gira para estar aqui e em parte bastante verdadeira, mas não valeria os minutos de precioso sono que me está a retirar.
Assim sendo, estou aqui para vos colocar, caríssimos leitores, uma questão. Questão essa de interpretação, uma vez que o título assim o solicita e sem qualquer surpresa, porque fui eu que o escrevi há cerca de 2 a 3 minutos.

Gostaria imenso (note-se que quase não caibo em mim, tal é a emoção) que tentassem interpretar este poema que se segue. Não há nada como por essas vossas cabeças habituadas ao descanso a funcionar! E eu sempre adorei trabalho escravo (Nota: A escravidão p'ra mim nada tem a ver com o tom de pele, se alguém quiser efectivamente, por bondade da sua alma, ser meu escravo ou, quem sabe, escrava estou completamente disponível). Devo lembrar-vos que isto já foi tentado uma vez através de um post que chamei "Sufrágio", mas agora interessa-me mesmo uma interpretação por palavras até porque escolher uma coisa que eu escrevi de entre uma pequena lista delas me parece, hoje, extremamente redutor da vossa capacidade.

Aqui vamos nós:

Chave


Meio do primeiro espaço, sobe, segunda linha,

Segundo espaço, curvando-se, passa-lhe a terceira linha

Como uma secante, marcando o descer encurvado,

Dobrado até à segunda linha através do homónimo espaço,

Que toca e passa continuando a curvatura pelo primeiro,

Toca de novo o primeiro traço numa pancada seca que eleva a linha

E a leva de novo ao traço de onde vinha, na mais linda das meias-luas.


Tem agora a forma de um pequeno e sinistro caracol, a preto e branco,

Quando o sol o não doira para que o venha saudar alegremente,

Aqui, se o faz ou não, não importa, que a curva continua excentricamente,

Serrando numa diagonal pouco comum: o segundo espaço, a terceira linha,

O terceiro espaço, a quarta linha, o quarto espaço, a quinta linha,

Lançando-se no vortex além! Até que, ninguém sabe porque, a curva volta

Volta envolta em mistério e na revolta com que impiedosa e fina cai sobre

Todas as linhas e todos os espaços, descendendo, como a espada de luz

Que corta a negra cortina de seda que até aí não significava coisa alguma…


E quando se pensa que acabou o corte, eis que a linha vira

E se arruma à sua direita, esquerda nossa,

Engordando num ponto de excesso que nenhuma linha quereria ter.

Esta o tem, por razão que desconheço;

Não acaba no oblíquo corte de espada e iluminação

Tem de o ter p’ra que se quebre o mistério das linhas, dos espaços duros,

Precisa da forma que tem…


P’ra quem vê pontos escuros.


Na escuridão.

Rafael Cardoso Oliveira


Agora é só dizerem de vossa justiça o que acham que o texto significa, é fácil e acho que até ficou uma coisa mais ou menos soberba. Estou a brincar, ficou, por certo, soberba (espero que entendam que a ironia é uma coisa gira).

Citação Chave:

"Never tell everything at once"
Ken Venturi

"The art of dinning well is no slight art, the pleasure not a slight pleasure."
Michel de Montaigne

I told'ya not to touch that darn thing...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O do detergente e das águas com sabor!

Um mês depois, vejo-me invariavelmente impelido a escrever qualquer coisa, por mais inútil e ordinário que o substrato dessa coisa a escrever se apresente. Neste caso é-o (inútil e ordinário) mas é também extraordinariamente divertido escrever sobre estas matérias tão comummente aliadas (detergentes e águas) em várias revistas cor-de-rosa, ou mesmo de telenovelas, naquelas páginas dedicadas às dicas para as donas de casa e às dicas para as donas de casa que querem emagrecer ou beber águas com sabor só porque é moda.
Dito isto, grande parte da problemática está explicada; é inútil, é ordinária (pela terceira vez) e não interessa mesmo a ninguém, mas, como podem prever desde que este post começou, este longo e enfadonho estudo ser-vos-á administrado com os modos de uma ama que não gosta de vós e que por isso vos força (com força sobrehumana) colheradas de algo a que ela gentilmente chamou sopa pela boca abaixo. Eu sou essa ama. Bem sei que talvez tenha sido uma má escolha de personagem para o papel de vilão, pois que me devem imaginar numa farda preta e com um belo avental de renda branca e um pano na cabeça a condizer...enfim, não caiam no esteriótipo, é tudo quanto vos posso pedir.
Mas deixando os devaneios, que são bonitos mas não são o que nos trás aqui, vamos ao prato principal. Começemos, porque somos pessoas educadas, pelo prato de peixe, que será o dos detergentes.
Quanto aos detergentes não há muito que se lhe diga, já se falou aqui sobre champôs e amaciadores e detergentes e os mesmos amaciadores. Falou-se nessa altura sobre os detergentes para a roupa, falar-se-á agora também um pouco disso mas juntamente com os detergentes para a limpeza de todo o tipo de superfícies e afins (note-se que se utiliza a expressão 'e afins' quando não se domina bem o assunto sobre o qual se discursa; usa-se esse belo bordão de linguagem que tão bem serve como porta das traseiras para que me possa escapulir antes de levar com o primeiro, e noutros modos certeiro, tomate que viria em direcção da minha distinta pessoa. Há que ter o profissionalismo de admiti-lo nesta nota, até porque entretanto já fugi com o pasmo em que estão perante a admissão de culpa). Esses detergentes costumam ter nomes bastante bonitos, que pecam por até serem simples demais, que falham por dizerem apenas o que querem dizer e é nisso que este post se torna interessante:

Cif Spray Limpa Fornos
Cif Inox


Aqui temos o exemplo de Cif, admirável diga-se. Cif Spray Limpa Fornos faz jus ao seu grande nome: é Cif, é um spray, e, adivinhem lá isto que ninguém estava à espera, é indicado para limpar fornos. Cif Inox é análogo mas para limpar aço inoxidavel. Até aqui, tudo bem.

Comfort Vaporesse
Comfort Essência Sun Fresh


Começa a aquecer o assunto que me trouxe aqui. Comfort Vaporesse: não faço a mais pálida ideia do que isto faz. Lendo no site da Comfort, pode saber-se que Comfort Vaporesse deixa a roupa com 'um agradável cheirinho a fresco' (coisa invulgar) e para além disso protege o ferro de engomar da acumulação de calcário. Neste momento nutro uma verdadeira fascinação por esta maravilha do detergir, claramente explicada no termo 'Vaporesse'...só o comum dos mortais é que não percebe como. Comfort Essência Sun Fresh: após uma pesquisa de cerca de 30 segundos, não há qualquer referencia a este produto, o que só me deixa tão embasbacado como quando encontrei o nome. Não faço, e desconfio que nunca farei, ideia da maneira como se capta a essência solar fresca para um detergente. Mistério da Fé.

Mas agora para a verdadeira maravilha, a verdadeira utopia do supradito mundo do detergir!



Vanish Oxi Action Intelligence Plus Crytal White
Karpex Vanish Oxi Action Intelligence Plus


Por favor, não comecem já a estrebuchar de pavor ao lerem isto, até porque não há como. Esta é a verdadeira essência do detergente, que é justamente aquele que ninguém desconfia para que serve! Vanish Oxi Action Intelligence Plus Crystal White? Mas o que é isto? Isto bem podia ser nome de uma doença qualquer e ninguém desconfiaria, não se sabe mais disto que o comum dos mortais sabe sobre a adrenoleucodistrofia X ou sobre o dodecisulfato de sódio. P'ra quê, senhoras e senhores, dar um nome destes a um detergente? E a adição de Karpex Vanish Oxi Action Intelligence Plus, e este sei eu que é para carpetes! Karpex? Sinceramente, há muito boa gente neste mundo que tem muito, e sublinhe-se, muito tempo livre nas suas mãos. E além de tudo: Intelligence? Estão a querer convencer-me que este detergente é mais eficaz porque possui algum tipo de remota inteligência é isso? Talvez seja a caracteristica mais credivel do pack... e daí talvez não.

Passando agora ao prato de carne:

As águas com sabor...

É moda, está tudo dito, e, como disse numa célebre crónica o ilustre humorista Ricardo Araújo Pereira (não ipsis verbis porque não tenho paciência para citar), 'água com sabor é um paradoxo, se tem sabor, não é água' sendo que a definiçao de água é ser insípida, faz todo o sentido e ainda 'no oriente já inventaram esta coisa da água com sabor aqui há uns anos, parece que lhe chamaram chá.' Está coberto de razão.
No entanto o que me trás a este belo porco no espeto de prato de carne, é um anúncio de outro dia. Água Formas Luso, de que a Telma Monteiro tanto gosta para manter a forma para o Mundial de Judo. Há-as com sabor a morango, banana, manga, maracujá, maça, fruta do conde, cereais, eu sei lá. Há-as a saber a tudo e mais alguma coisa, tal como as batatas fritas com sabor a churrasco ou a picanha quando só se quer batatas que saibam a batatas. E até hoje me pergunto quem foi o acéfalo que, no alto da sua sapiência, inventou estes sabores. Churrasco? Sinceramente... sabe à grelha depois do churrasco acabado, é ?
Mas o chocante disto tudo, que foi o que me trouxe aqui, é ainda o das Formas Luso que anunciam com uma voz sensual, num anúnicio em todas as vertentes espetacular: "Formas Luso, agora SEM SABOR" Pera lá, queres ver que eles se lembraram de engarrafar água? Não pode ser...

E com isto acaba a refeição.

Citações de Sobremesa (pode ser um crepe Suzette com uma bola de gelado à escolha):

'There's a fine line between fishing and just standing on the shore like an idiot'
Steven Wright

'Huh? What's wrong? House ran away? Dog on fire?'
Homer Simpson


"Books are useless! I only ever read one book, "To Kill A Mockingbird" and it gave me absolutely no insight on how to kill mockingbirds!"
Homer Simpson


These are the basics of the basics...

sábado, 25 de julho de 2009

Dulcineia

Parando agora este lento requiem por um momento, só para um poema pequeno. É como a pausa de um qualquer sacerdote para uma bolacha de pão e um cálice de vinho; se têm os homens tão de deus essa liberdade, também a terei eu aqui, que sou a forma mais perto da deidade que este lugar conhece.

Dulcineia

Escrever-te três linhas é pecado, é heresia,
Quisera algum deus (o teu) saber-te o fado
E, penso eu, nunca o saberia.
De ti a ti só vem esp'rança e fantasia, passa-te'ao lado
A cobardia do Homem normal e não tão forte,
Quisera algum deus (dos homens todos) saber-te o fado
E ter-te-ia enviado um teu Quixote.

Rafael Cardoso Oliveira

Citação a Dulcineia:

Dulcineia

Quem és não importa, nem conheces
O sonho em que nasceu a tua face:
Cristal vazio e mudo.
Do sangue de Quixote te alimentas,
Da alma que nele morre é que recebes
A força de seres tudo.

José Saramago, Os Poemas Possíveis

Por razões óbvias queria evitar as comparações inevitáveis entre os dois poemas, até porque o do Sr. Saramago é merecedor de muito mais atenção e mérito, pela profundidade com que caracteriza Dulcineia. O meu poema é meramente descritivo, é como um resquício do que ficou em mim dos Poemas Possíveis, e que tinha de escrever para não condenar melhores e maiores poemas à desgraça do plágio ou, pior que essa, à desgraça da influência. A influência torna a poesia, e a prosa, confusas; perdem a qualidade de serem espontâneas, puras e originais. A influência depressa desaparece quando se é influenciado por outras coisas, não há, portanto, o estado puro de escrita de que falei, mas penso que era uma ideia gira.

Um outro aspecto que me intriga é que o corrector automático de ortografia e gramática desta coisa, exige que eu corrija deus para Deus. É esta a altura em que os ateus e os agnósticos começam a fugir, que é engraçado como Deus está realmente em toda a parte. Para quem não deu conta, estou a ser irónico. E 'coisa' é das palavras mais usadas em latim (res).

É a Hora.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Dies Irae!

Nesta onda de Requiem vamos alterar um pouco as coisas. É este o dia em que este blogue deixa o preto, só porque a legibilidade reduzida até a mim me começa a incomodar. E, como não me quero incomodar em alterar todos os post em que disse que isto era 'branco no preto' ou em que fiz qualquer referência encapuzada ao negrume de breu deste lugar, vem o início deste post nessa linha de justificar esta minha suma decisão. Quanto a isto, é tudo.

Continuando a procissão, a missa, ou o que queiram chamar-lhe vem o Dies Irae, que traduzido à letra quer dizer 'Dia de raiva/fúria'. Como podem ver isto faz todo o sentido: O pontífice deste lugar, leia-se eu, num momento de inexplicável fúria resolve mudar os tons, d'um ponto de vista meramente cromático, deste sitio. Quanto a isto há duas coisas a dizer:

1. Era uma perspectiva engraçada e quiçá até bonita, mas que não é de modo algum verdade, era uma associação de ideias muito forçada.

2. Esta mudança de cor é como maquilhar uma mulher feia ou, pior ainda, um qualquer dragqueen que se veste de Liza Minelli aos sábados à noite; isto é, por mais voltas que eu (ou vocês) dê a este lugar isto será sempre a mesma coisa, agradável a uns, desagradável a outros e é nisso que isto ganha alguma vida.

2'. Conhecem, por certo, aquela ilusão de óptica em que há umas quantas linhas cinzentas interseccionando-se sempre perpendicularmente, como um quadriculado, num fundo preto, com pontos brancos em cada uma das intersecções. O efeito perturbador de ver esses pontos brancos transformarem-se em pretos dá-se em blogues de 'branco no preto', o que me estava a perturbar um pouco. Daí a mudança.

Agora à verdadeira relação do Dies Irae com tudo o resto: o Blogue que dá pelo nome de Rascunhos. Sim, Miguel, é culpa tua. Vendo o teu post lembrei-me de um Poema que escrevi há uns tempos e resolvi finalmente apresentá-lo ao mundo. Assim são dois blogues com posts concomitantes em relação a uma perspectiva interessante. É giro diria mesmo. Sem mais delongas aqui vai o poema:

Soneto Forte

Martiriza, por que Mavorte seja máximo, Vulcano o ferro quente,
Igniza, o grão ferreiro, a espada da sorte morta, lâmina direita e torta
Que desce por sobre o céu de sangue e o decepando cega a gente
Dobrada ante não a luz, mas a força cheia que’o negro ar corta.

É a gente fraca, a espada é torta, o dia escorre por entre os dedos mortais,
Marca-se cada porta de vermelho medo, sob o jugo celeste, por t(r)emor frio,
Fosco frio, que é connosco, e fraca força, que nos sobra e nos torna tais
Que tudo por nós é grande, forte demais, um nosso calcanhar fora de um rio…

Sem força, submissos perante o último filho do tempo imortal não devorado(,)
Sem esforço, que tudo nos é mais que o suportado, vibram raios perto dos ouvidos,
Somos petrificados de terror, pueris neste pudor de recear tudo o que mais é [fortificado.

Ah mortais do mundo! Soltai-vos das amarras, sede fortes, tende sede de dias subidos,
Negai os futuros dias dobrados e os dias idos e contados da pocilga do Passado,
Troai na terra e vê-los-eis no firmamento grande, tão de brilhos carregado(s), [genuflectidos!

Rafael Cardoso Oliveira

Citações de Fúria:

"I know it was you Fredo. You broke my heart...you broke my heart."
Michael Corleone, The Godfather part II

"Rorschach's Journal. October 12th, 1985: Dog carcass in alley this morning, tire tread on burst stomach. This city is afraid of me. I have seen its true face. The streets are extended gutters and the gutters are full of blood and when the drains finally scab over, all the vermin will drown. The accumulated filth of all their sex and murder will foam up about their waists and all the whores and politicians will look up and shout "Save us!"... and I'll whisper "no."
Rorschach, Watchmen

"Hahahaha...You have nothing to threaten me with. Nothing to do with all your strength."
The Joker, The Dark Knight

Let her go...


Sai a procissão do adro!

sábado, 20 de junho de 2009

Introitus

Nada há como os começos auspiciosos...


(o leitor aborda agora o texto ao som da música, tomando toda a cena uma carga dramática transcendental, profunda. Deve estar de costas para o público, para o mundo em geral, sem mostras de hesitação ou excitação como que o rejeitando; assim lê)

E ainda que muito se deva, neste caso concreto, a um génio que é hoje comummente aceite e aclamado, não menos se deve à expectativa que se cria quando há algo que, pelos melhores motivos, nos desperta a curiosidade (é conveniente que o leitor se aperceba de que "E ainda..." vem na continuidade da primeira frase escrita neste post e não cai ali de para-quedas, ou , pior até, sem ele; caso não o perceba é também conveniente que finja que percebe, aqui não há canastrões!). É isto que este post vem a ser (além de naturalmente tardio para vós, sendo que, em verdade, nunca tarda porque eu não prometo nada em termos da publicação assídua de posts por estar plenamente ciente da minha incapacidade para cumprir prazos e, ainda por cima, cumprir prazos em algo que faço por meu próprio, e sádico, gosto é algo que transcende as minhas normas neste local).

Admirem, também, o meu talento de escrever orações mais complexas dentro de parêntesis do que as que realmente interessam e que, como tal, estão fora deles. Espero que ainda estejam a ouvir a música, se assim não for recomendo que recomecem, o tom dramático de um requiem ajuda sempre: se estamos contentes é porque é bonito, se estamos tristes é porque é de uma nobreza inigualável, se o não soubermos apreciar, das duas uma: ou somos vítimas da ostracização musical que a sociedade impõe, admitamos que inadvertidamente, porque não vê a música como uma matemática aplicada (por exemplo) ou então estamos de barriga para o ar, mais bonitos do que alguma vez estivemos, rodeados de variados renques de flores e um coro de carpideiras se quisermos por as coisas em termos chãos. Não fosse o facto do rigor mortis o exigir e esta chalaça seria toda ela feita em termos menos metafóricos.

Se ainda não deram conta, este post destina-se unicamente a ser uma introdução, um prefácio, uma aurora para um esplendoroso amanhecer. Ou assim seria, se este sitio tivesse algo de esplendoroso...Mas não vos quero enganar, hoje os termos são simples, são latos, são baratos. Amanhã segue-se a marcha, não especialmente de morte, nem de vida, é só uma marcha cujo ritmo se marca hoje.Hoje há como que um luto de palavras. Silêncio.

Hoje não se diz nada.

Citação de eterno descanso:

Requiem aeternam dona ets, Domine,
et lux perpetua luceat ets.
Te decet hymnus, Deus, in Sion,
et tibi reddetur votum in Jerusalem.
Exaudi orationem meam,
ad te omnis caro veniet.
Requiem aeternam dona ets, Domine,
et lux perpetua luceat ets.

"I think not!"

Nota: Uma versão melhor do Introitus inclui também o "andamento" (parte da missa de requiem) seguinte no link que forneci (Kyrie Eleison), quem quiser ouvir, faça-o, sendo que está tudo no mesmo vídeo. Mas o que vale para o post, para já, é só o Introitus. Mas eu compreendo que oiçam o resto, John Eliot Gardiner não se pode deixar a meio, é demasiado bom.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Manual

Não há muito a dizer hoje, a não ser duas coisas. Mais uma vez após longa ausência vem mais um post a este blogue. Isto só me leva a quase querer mudar uma das coisas que tenho feito sempre: desculpar-me pela longa ausência antes de cada post. Hoje, iluminado por uma qualquer graça que desconheço, não vou fazê-lo, apenas porque tenho vindo a fazer tal coisa quase sempre, o que me leva a pensar que instituí uma nova regra por aqui, ainda que inadvertidamente. "Os posts do Rafa distam sempre um número significativo de dias entre si" ou então "Entre os posts do Rafa serem colocados é sempre uma questão de segundos"; é bem verdade, e como tem sido regra, e em caso de qualquer dúvida aplica-se sempre o artigo 14, acho por bem não ter de me desculpar. As minhas desculpas a quem não percebeu a questão dos dias/segundos, eu explico resumidamente: entre tudo o que ocorre no universo é sempre uma questão de segundos, a questão é que podem ser muitos segundos.
O segundo tópico da ordem de trabalhos de hoje é: o mais recente, e por sinal inútil, acréscimo a este blogue. O Séquito do 678. Pois bem, eu adoro contadores. Adoro números e todas as coisas giras que eles revelam; gosto mais de palavras, mas, ainda assim, não se pode fazer sudoku com palavras (não me venham com sopas de letras e palavras cruzadas), simplesmente não se pode.
Bom, acho extrema piada à noção de ter, mais que um séquito, um séquito de suicidas que ainda dispõem de tempo para ler este tipo de inutilidades e que, ainda pior, de facto dispendem o , sublinhe-se, seu tempo a fazê-lo. Eu agradeceria, mas isso implicava ser uma pessoa decente. Isto tudo claro sem contar os que eu obrigo, naturalmente, a ler isto; esses não contam, estão ao abrigo do artigo 14.

Bom mas já chega de conversa fiada, porque certamente a vossa vida não é isto, tal como a minha não é. O problema é que eu aqui ainda me divirto enquanto que vocês dificilmente o fazem, digo eu (não é que o deseje). Mas admitam lá que gostaram do Champô e Amaciador, foi uma daquelas inspirações que só se tem uma vez. Uma epifania.

Aqui vai o poema de hoje.

Manual

Eu sou um técnico de palavras.

Não simplesmente por sê-lo,

Mas porque sei não ser além disso.

No ofício que exerço sou um despreparado,

Sempre um passo à frente, ou talvez ao lado

De cada poema que não faço, mas vejo fazê-lo.


Eu sou um técnico de palavras.

E isto soa a uma variação inútil de um verso tão maior,

Um plagio fútil de alguém que molda com cada mão,

Feito oleiro habilidoso por impulso mais que por condição,

O barro molhado que as palavras não são. E não,

Não é essa uma prova de mestria de quem transforma,

Feito alquimista, por alguma fórmula maestra ou negra forma,

O barro, ou as palavras, naquilo que elas não são de verdade.

É antes prova de quanta inutilidade e imprecisão é um homem capaz;

Que numa idiotice mental, ainda que audaz, compara a ficção

(do homem que molda barro em cada mão) com a realidade.


Eu sou só um técnico de palavras.

Delas não sei as leituras nem a sua metalinguística,

Metafísica, química, osmose, propagação ou sinergia artística.

Eu desconheço o que elas fazem, e apenas sei trocar-lhes as voltas

E a ordenação, como cabos de aço e cobre sob extrema tensão

Que eu vou esticando, com força sobre-humana, até a ruptura…

Ou iluminação…


Eu sou um técnico de palavras.

E daí que as esculturas que componho com elas sejam todas isto.

Isto, este nada, que até parece qualquer coisa, já tão visto,

Já tão gasto, já tão cheio de orgasmos metálicos, tão aparentemente forte…

E pudera bastar-me isso, mas eu não me basto, não me farto, e a cada corte

Que os ares de poesia, vítreos e espectrais, me infligem eu rio e peço mais.

Quero, tomado de loucura e fantasia, perder o norte e as noções normais

Para ter a doença que tanto impulsiona o não querer qualquer cura!

O que impele um homem a dores, a tonturas paradoxais a cada laceração!


O mundo precisa de técnicos. (Eu sou um técnico de palavras.)

A poesia não.

Rafael Cardoso Oliveira


Citação de Regulamento:


Artigo 14: "Aqui quem manda sou eu."

678


Uma coisa de que gosto bastante: comentários. Isto é sério. Este blogue é todo preto em si, só não ponho as letras a preto também porque seria o único a divertir-me, mas eu agradeço qualquer comentário. Afinal de contas, os comentários entretêm-me. Compreendam, estou acostumado às ofuscantes luzes da ribalta.


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