domingo, 11 de janeiro de 2009

Manual

Não há muito a dizer hoje, a não ser duas coisas. Mais uma vez após longa ausência vem mais um post a este blogue. Isto só me leva a quase querer mudar uma das coisas que tenho feito sempre: desculpar-me pela longa ausência antes de cada post. Hoje, iluminado por uma qualquer graça que desconheço, não vou fazê-lo, apenas porque tenho vindo a fazer tal coisa quase sempre, o que me leva a pensar que instituí uma nova regra por aqui, ainda que inadvertidamente. "Os posts do Rafa distam sempre um número significativo de dias entre si" ou então "Entre os posts do Rafa serem colocados é sempre uma questão de segundos"; é bem verdade, e como tem sido regra, e em caso de qualquer dúvida aplica-se sempre o artigo 14, acho por bem não ter de me desculpar. As minhas desculpas a quem não percebeu a questão dos dias/segundos, eu explico resumidamente: entre tudo o que ocorre no universo é sempre uma questão de segundos, a questão é que podem ser muitos segundos.
O segundo tópico da ordem de trabalhos de hoje é: o mais recente, e por sinal inútil, acréscimo a este blogue. O Séquito do 678. Pois bem, eu adoro contadores. Adoro números e todas as coisas giras que eles revelam; gosto mais de palavras, mas, ainda assim, não se pode fazer sudoku com palavras (não me venham com sopas de letras e palavras cruzadas), simplesmente não se pode.
Bom, acho extrema piada à noção de ter, mais que um séquito, um séquito de suicidas que ainda dispõem de tempo para ler este tipo de inutilidades e que, ainda pior, de facto dispendem o , sublinhe-se, seu tempo a fazê-lo. Eu agradeceria, mas isso implicava ser uma pessoa decente. Isto tudo claro sem contar os que eu obrigo, naturalmente, a ler isto; esses não contam, estão ao abrigo do artigo 14.

Bom mas já chega de conversa fiada, porque certamente a vossa vida não é isto, tal como a minha não é. O problema é que eu aqui ainda me divirto enquanto que vocês dificilmente o fazem, digo eu (não é que o deseje). Mas admitam lá que gostaram do Champô e Amaciador, foi uma daquelas inspirações que só se tem uma vez. Uma epifania.

Aqui vai o poema de hoje.

Manual

Eu sou um técnico de palavras.

Não simplesmente por sê-lo,

Mas porque sei não ser além disso.

No ofício que exerço sou um despreparado,

Sempre um passo à frente, ou talvez ao lado

De cada poema que não faço, mas vejo fazê-lo.


Eu sou um técnico de palavras.

E isto soa a uma variação inútil de um verso tão maior,

Um plagio fútil de alguém que molda com cada mão,

Feito oleiro habilidoso por impulso mais que por condição,

O barro molhado que as palavras não são. E não,

Não é essa uma prova de mestria de quem transforma,

Feito alquimista, por alguma fórmula maestra ou negra forma,

O barro, ou as palavras, naquilo que elas não são de verdade.

É antes prova de quanta inutilidade e imprecisão é um homem capaz;

Que numa idiotice mental, ainda que audaz, compara a ficção

(do homem que molda barro em cada mão) com a realidade.


Eu sou só um técnico de palavras.

Delas não sei as leituras nem a sua metalinguística,

Metafísica, química, osmose, propagação ou sinergia artística.

Eu desconheço o que elas fazem, e apenas sei trocar-lhes as voltas

E a ordenação, como cabos de aço e cobre sob extrema tensão

Que eu vou esticando, com força sobre-humana, até a ruptura…

Ou iluminação…


Eu sou um técnico de palavras.

E daí que as esculturas que componho com elas sejam todas isto.

Isto, este nada, que até parece qualquer coisa, já tão visto,

Já tão gasto, já tão cheio de orgasmos metálicos, tão aparentemente forte…

E pudera bastar-me isso, mas eu não me basto, não me farto, e a cada corte

Que os ares de poesia, vítreos e espectrais, me infligem eu rio e peço mais.

Quero, tomado de loucura e fantasia, perder o norte e as noções normais

Para ter a doença que tanto impulsiona o não querer qualquer cura!

O que impele um homem a dores, a tonturas paradoxais a cada laceração!


O mundo precisa de técnicos. (Eu sou um técnico de palavras.)

A poesia não.

Rafael Cardoso Oliveira


Citação de Regulamento:


Artigo 14: "Aqui quem manda sou eu."

678


Uma coisa de que gosto bastante: comentários. Isto é sério. Este blogue é todo preto em si, só não ponho as letras a preto também porque seria o único a divertir-me, mas eu agradeço qualquer comentário. Afinal de contas, os comentários entretêm-me. Compreendam, estou acostumado às ofuscantes luzes da ribalta.


Alt+f4


segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Champô e Amaciador/Detergente e Amaciador

Caríssimos, como eu gosto disto! Ai vírgula ai vírgula ai vírgula como eu gosto disto ponto de exclamação Aliás gosto tanto disto que resolvi postar mais um poema, por certo conhecem os packs de champô e amaciador ou detergente e amaciador, não é assim? Pois bem, tomem este poema como o amaciador. E, como bom amaciador, a dosagem é pequena e só deve ser aplicada após a aplicação do produto principal; o mesmo será dizer que lá porque me lembrei de fazer mais este post hoje isso não quer dizer que o outro deva ser ignorado. E, se bem se lembram, este regime ditatorial dita que as minhas recomendações sejam palavra divina, mais que leis até, por aqui. Eu sei que a democracia é gira, mas num blogue cujo único membro sou eu, seria hipócrita ter um regime democrático não é assim? "Está claro isto?" (parafraseando Sr.ª Professora Dulce Madeira, excelsa regente de Anatomia). E como isto para amaciador já vai muito concentrado só queria fazer uma última consideração que agora me surgiu:

Porque é que o amaciador do cabelo e da roupa têm o mesmo nome?

Pode parecer um problema trivial mas dá que pensar. Senão vejamos o exemplo que muitas vezes se usa como comparação no mundo dos champôs, cabelos, estética e cosmética que é : se a artéria axilar ao passar o bordo inferior do músculo redondo maior muda de nome para artéria braquial sendo que é EXACTAMENTE a MESMA estrutura mas pela designada e célebre "paneleiris nominae anatomicae" como muda de sítio muda de nome, então porque raio é que dois produtos cuja embalagem, função, cor, textura é completamente diferente têm de ser designados simplesmente de amaciador?

Como podem ver, do ponto de vista anatómico, isto não faz qualquer sentido. E que ninguém me venha dizer que chama "amaciador de cabelo" ao amaciador ou "amaciador de roupa" ao amaciador. Sim, porque isto causa confusão e poderá gerar atritos futuros. Deixem só que eu chegue à gerência de um Pingo Doce e verão que maroteiras eu faço com embalagens de champô e amaciador. Vai ser ver as senhoras a levar Garnier e Amaciador Feno de Portugal e eu a rir-me cruel e desalmadamente (p'ra quem não sabe Feno de Portugal é uma aclamada marca de sabonete, que suponho não ter amaciador, mas isto é uma ditadura portanto a supracitada marca passa a ter temporariamente amaciador para efeitos logísticos).

Isto p'ra amaciador já vai longo, como já disse há cerca de 349 palavras e um café atrás, aqui vai o poema então:

Poema a Tinta Permanente


É bom passarem quarenta e dois minutos do meio do dia.

Não porque haja algo de especial nisso, nem haveria

Mesmo que eu o inventasse agora. É boa a precisão do tempo,

O saber que cada hora não é nova, nem o seria

Mesmo que o conceito de hora tivesse sido inventado agora.


E o tempo demora, demora e não vai melhor embora

Por eu falar mais nele ou lhe tecer elogios rasgados.

Os minutos passam contados, em segundos tique-taqueados

Aos meus ouvidos… uma e outra vez e outra vez e outra vez!…

Tenho os olhos surdos de fixar ponteiros e os ouvidos gastos e [cansados!


São agora quarenta e três…


Rafael Cardoso Oliveira


Citação complementar:


"Now you're looking for the secret.
But you won’t find it because of course, you're not really looking.

You don't really want to know.


You want to be fooled."
Cutter, The Prestige (Cutter:Michael Caine, filme de Christopher Nolan)


AVISO: Ver Post Principal do Dia. Que está abaixo deste por sinal.

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Vitae

Após longa e valorosa, diga-se também, ausência este post marca o regresso da vida a este blogue. Então nada melhor do que um poema sobre isso, ou quase sobre isso. Não há muito para dizer de resto, o Barack Obama foi eleito e o mundo mudou mas ainda não mudou o suficiente para que houvesse uma inspiração de prosa por estes lados. Não, aqui é só (ou quase só) forja de versos e já é chato que chegue.

Aqui vai:

Vitae

Há um tédio aterrador e opressivo

E uma força brusca de inspiração indizível

Que leva a escrever mesmo sem motivo,

Ainda que nada que aqui se escreva seja crível,

Aprazível ou mesmo vivo.


O problema é a concentração de tédio sobrenatural

Que não se move a favor do homónimo gradiente,

Que tudo aqui é funcional, enérgico e certo e minimal

Sem que isso diga algo além do aparente.

Aqui não há segredos, nem lendas fenomenais…

Não se pode inventar além da imaginação contada,

Contável, enclausurada e matematizada e (mate)matizável

A níveis incríveis… por paranormais.


E a metafísica disto é nula, não há nada que viva realmente,

Em nada disto há senão um tédio dormente e dolente,

Que docemente nos consome a todos. Está tudo a dormir e,

[dormindo,

Lá fora há sol a rodos e chuva zunindo e um dia tão diferente.


E pensar que a química vital não é a química da vida…

(nem o docente)

Rafael Cardoso Oliveira


Citação Vital:


"Que importa o areal e a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É o que eu me sonhei que eterno dura

É Esse que regressarei."

F. Pessoa, Mensagem



Da capo al fine


X


sábado, 9 de agosto de 2008

O melhor poema de sempre

Bem, após mais um mês de ausência, estou de volta, primando, como se vê, pela humildade e falta de auto-estima. Penso que o título do post é esclarecedor o suficiente e, além disso, não me apetece falar muito. Vamos à acção!

O melhor poema de sempre

Pensar-se poderia que seria aqui, neste lugar,
Que se cantaria por formas perfeitas o a-cantar.
Talvez sim, senhores, talvez não, que também canções
Malfeitas, horríveis e d’horrores d’homens sem coração
Podem ser versos - nunca prosas -, belos versos d’arrepiar.

Seria então este papel pintado tudo menos vulgar,
Demasiado bom e sério, com os ouros do império e o brilhar
Do impropério em boca de mulher, tão mais delicada
Que o homem em que a poesia não é nada, nem os brilhos são.

São senão mentiras que ele diz sem fé nem prova e que ela,
Pobre tola, adora e renova a cada pulo mais vermelho do coração.
Também este poema é isso: uma mentira, um embuste e uma arma,
Uma tira de seda com que se vendam os olhos, um fármaco de ruindade
E escuridão. Uma aldrabice de um mau aldrabão.

E, como se disse, não sendo este o mais eloquente dos versos escritos,
Nem desses a sua mais brilhante composição, este pedaço de verbos malditos
E de substantivos adjectivados sem razão é o melhor poema e o mais possante,
Não por sê-lo em verdade mas por de impressionante só ter o excesso
De vaidade.

Mas há coisas tão mais vãs, tão mais cheias de maldade, que isto aqui,
Na sua louca prepotência e carência de humildade é bonito até…
É o meu grito de poeta frustrado, de homem ultrapassado
E sem coisas nem verdades novas, sem ideias nem novidades,
Sem novos bens ou novas maldades ou outras coisas que a poesia não tem,
São estes os versos malfeitos, horríveis e d’horrores d’homem apaixonado,
Como prosas esquecíveis e, nisso, incapazes d’arrepiar alguém.


Rafael Cardoso Oliveira


Melhor citação:

"Jules: Wanna know what I'm buyin' Ringo?

Pumpkin: What?

Jules: Your life. I'm givin' you that money so I don't hafta kill your ass. You read the Bible?

Pumpkin: Not regularly.

Jules: There's a passage I got memorized. Ezekiel 25:17. The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who, in the name of charity and good will, shepherds the weak through the valley of the darkness. For he is truly his brother's keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my brothers. And you will know I am the Lord when I lay my vengeance upon you. I been sayin' that shit for years. And if you ever heard it, it meant your ass. I never really questioned what it meant. I thought it was just a cold-blooded thing to say to a motherfucker before you popped a cap in his ass. But I saw some shit this mornin' made me think twice. Now I'm thinkin': it could mean you're the evil man. And I'm the righteous man. And Mr. 9mm here, he's the shepherd protecting my righteous ass in the valley of darkness. Or it could be you're the righteous man and I'm the shepherd and it's the world that's evil and selfish. I'd like that. But that shit ain't the truth. The truth is you're the weak. And I'm the tyranny of evil men. But I'm tryin', Ringo. I'm tryin' real hard to be the shepherd."


Jules - Samuel L.Jackson
Pumpkin/Ringo - Tim Roth
Pulp Fiction de Quentin Tarantino (escritor e director).

Over n'out

domingo, 6 de julho de 2008

Musa Inspiradora

Em momentos desinspirados escrevem-se coisas destas. A temática sempre é mais agradável, para os mais sensíveis. Para mim é-me indiferente, são cinco da madrugada, tenho mais em que pensar.

Musa Inspiradora

É hoje o dia de escrever à dos cândidos cabelos,

Dos olhos fundos, da boca encarnada e elegante,

À dos dedos longos, tez firme e mui brilhante

Que, quando no chão, apoiada nos cotovelos,

Balança os pés, encaracola mais os cabelos

E escreve poesia forte e fulminante.


Em sua alta pose de escritora é tão constante

A harmonia que exala dos seus magnos dedos,

A forma como breves deslizam pela folha

Desvelando esses sexuais segredos

De medos, de ousadias, de rituais, presos

Nessa bolha de sabão que são os sonhos,

Que são as vidas, que é luz

E a escuridão.


Tamanhos são seus olhos, tamanhos são,

Que minha mão quando se por eles vê observada

Não diz nada, cala a palavra e a inspiração

Expira-se e não volta mais.


Tais são os seus odores, são tais

Que me volta a inspiração em sonhos sensuais

Ou desejos que o homem em mim suplica.

Mas essa sede não se sacia de águas carnais

Antes de palavras em papel que o corpo não explica.


O corpo não quer saber da minha musa

Nem sequer o homem em mim,

Sou eu quem a mim se acusa

De, no fim, não ser só as minha ideias.


Só as minhas ideias são a minha musa…


(Di-las-ei feias?)


Rafael Cardoso Oliveira



Citação Inspiradora:

"Viver não é necessário, o que é necessário é criar."

F.Pessoa


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