quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

1


Prostrado num chão cheio de sal,
Olhando essa casa lá ao longe
Erguida mesmo muito rente ao abismo,
Sei que estou só e, simplesmente, não sei estar só.
Por isso cismo em ver-te chegar de lá;
Dessa casa poisada no abismo.

Apoiada numa vara pouco torta
(Mas que direita, em rigor, também não é),
Vens-te chegando um pé ante outro pé
(Apenas porque não há modo de andar
Que esse não seja).
E enquanto o mar revolto me arrefece e beija,
Vejo-te chegar de lá por sobre o ar
Dessa casa poisada no abismo;
Esse sim, em rigor, por endireitar.

Vês-me sofrer, vens-me sofrer,
Talvez matar…
De um amor que é como o sal debaixo dos joelhos,
Que é como a areia que me erode os trapos velhos
E que se acumula nas minhas miudezas,
Nas minhas ideias de casas de princesas,
Nas minhas marés que me racham toda a face.
Serei eu pedra ou talvez o túmulo onde passe
O navegador que venha dobrar o meu assombro…
Ou local que marque o sítio onde, sobre o ombro,
A tua casa assenta no meu olhar abismado e, sempre rente,
Só não cai porque eu estou cá constantemente…

Certamente batido por outras ondas de água igual…
Lembro-me de todas elas e do ritual que repetiram
Até que o tapete rochoso que cruamente repeliram
Fosse o ar que faz sentido nesse abismo que é tua casa.

Fecha-me os olhos para que te possas partir;
Que o meu tempo atrasa o teu tempo de morrer.
Vamos atrasados para onde temos de ir.
E, faltando o chão, havemos de voar
Ou de cair
Entre bocados segurados com o olhar.


Rafael Cardoso Oliveira

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Ode das Sombras


Dobrada comendo a luz
De um prato negro na mesa escura,
Esquecida lembrando a cruz
Que ao peito lhe prende a loucura
De comer luz empacotada,
E de a ver empurrada pelos mesmo goles
Tomados todos de uma assentada
De vinho verde branco gaseificado
Comprado em promoção
Num supermercado.

Dobrado contando os nós
Que a vida dá num caixão alheio,
Esquecido lembrando a voz
Do homem que lhe deixou no correio
A carta de guerra ensopada em sal,
Que era mar e não água chorada,
Cansado de empacotar Portugal
Para a mesma jornada.

Dobrados contando as contas
Do terço que rezaram juntos,
Esquecidos olhando as montras
E o espectáculo dos outros defuntos,
Gemendo e chorando plangentes
Como facas arranhando lousa fria,
Rangem, em bruxismo, os dentes
Até lhos romper o dia.


Rafael Cardoso Oliveira

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Santo Suicidáro


Tem pena de mim.
Abraça-me com os teus olhos bravos e, por favor,
Entre os alarves, os cónegos, os bichos e os profetas,
Tem pena de mim.
Ama-me com as mãos abertas que escreveram palavras erradas.
Com as mesmas mãos sujas e agora despegadas do peito
Onde guardavas e guardas, numa prisão sem guardas,
O teu gélido conceito de amor.
Tem pena de mim, por favor.

Tem-me pena por não ter sido mais nem menos
Do que o ter repetido os ditames que me foram ditados,
Os ditongos ensaiados até à loucura e ao amor e à exaustão,
Os perdões multiplicados e os pães divididos por filhos esfaimados
Como cães que, em verdade, parece que são.
Parece que somos assim.
Acontece-nos o sermos assim.
Aconteceu-nos o fim do mundo e, sem darmos conta,
Servimo-nos da luz destas labaredas infernais
Por medo absurdo da treva.
Andamos loucos guiando cegos e cegos cegando loucos,
Ungindo cruzes na testa e estrelas no coração dos olhos.
E somos sempre poucos.
E estamos sempre roucos.
E a nossa voz é sempre certa.

Tem pena de mim cujo corpo não importa,
E que se atira para esta porta aberta do abismo
Enfrentando o chão com tal maquinal maniqueísmo
Que é a ilusão de escolher o fim que me conforta.
Bate-me tu essa porta na cara, se achares por bem,
Mas vê se, entre o meu não crer e o teu amém,
Não serei eu que quero estar do meu lado de fora.

Agora salto por ti também.
Só(,) agora.


Rafael Cardoso Oliveira

terça-feira, 5 de julho de 2016

Pathos

Ao viajante.


Pathos

Se te estender uma mão mas te ocultar o coração
Que sentirás?
Terás da ajuda que te dão o que procuras?
Procurarás a emoção para a encontrar racionada,
Racionalizada, raciocinada e empacotada
Junto de tantos outros males
E de outras curas?

Há mal em perder caminho e aventuras?
Há mal em ter caminho e arrepiá-lo?
Mal maior será ter tempo sem ter tempo
Para dá-lo sofregamente a quem padece,
A quem sofre de menos tempo que este tempo
E da menor benesse
De um céu qualquer
Ou do inferno fulgurante que amanhece.

Acontece-me esquecer que tenho duas mãos para dar.
E perco tanto, tanto tempo em juras e remorsos
Que só me escondem o coração, e os meus ossos
Fazem brilhar como se não fossem os teus ossos também.
Perco mais tempo a deixar ir aquém e além quem não sabe andar,
A masturbar o intelecto ou o objecto dos dias em que, cego,
Me nego a perceber e a aceitar que sou eu que consumo
Estas curas de que nem Maquiavel nu se lembraria.
E talvez pie - talvez não pie – uma piedosa cotovia
Que, cruel, debique, qual águia-real descendo a pique,
As mãos e o coração que pus nos bolsos, neste dia.

E por si pia.

Rafael Cardoso Oliveira



quarta-feira, 29 de junho de 2016

Acordemos

Acordemos

Hoje acordamos com a dura sensação
De que deveríamos ter acordado mais cedo.
Olhamos o espelho do lado errado e o dia todo trocado
Que não parece ser de sol mas que de chuva não é.
Pomos um pé fora da cama e um telemóvel na mão.
Acendemos a paciência e ignoramos a razão
E ligamos a nossa rede social.
Porque é normal
Haver rede social em solidão.

Acordamos com os olhos fechados, que fechados mantemos,
Ante as fachadas do que vemos e que é melhor não ver.
Concordamos, todos os dias, tacitamente
Em acordar com a nossa gente, não só à mesma hora,
Mas à luz da mesma aurora.
Ao som do mesmo tiro plangente
E tomando exactamente do mesmo pão;
Ou uma malga de vinho que nos esqueça de nós;
Ou um bom copo de aguardente
Para lembrar, não mais que esquecidamente,
Os egrégios avós;
Ou um sermão dominical administrado pela televisão,
Entre duas músicas e uma promoção
De como viver até aos cem
Sem dar por isso;
Ou o aval de alguém, que ninguém é,
Num qualquer local da tal rede social.

Entorpeçam-nos, por favor, rapidamente
Que isto assim não parece Portugal.

Hoje, acordamos com o mesmo compromisso
De manter a cabeça firme na sua posição torta.
De calcetar as ruas sujas, não fazer rebuliço e abrir a porta
À indigência e a ignomínia como irmãs.
E hão-de sentar-se à nossa mesa e comer a nossa carne,
Usar das nossas flores e inventar as nossas cores
Cantar a nossa terra mas mudar-lhe o seu sentido,
Até que o nosso ouvido ache que aquela é a nossa terra.
E, por obrigação imoral de uma Nossa Senhora qualquer,
Devemos, como qualquer homem e qualquer mulher,
Fazer cara serena e dizer que a vida passa bem.
Acordar que “vamos andando”, que sem andar não vai ninguém,
Apesar de não irmos a lado nenhum.
A noite chega e é só hora de dormir, e só nisso acordamos todos.
E desse sono não acorda ninguém,
Nem um.



Procurando-nos entre mil e um engodos, acordamos que tem de ser.
Acordamos que estamos dormindo e que assim já não pode ser.
Vemos que somos mentidos e que nos usam - o que não tem de ser.
Vemos que nos abusam quando estamos calados só para comer
As migalhas do pão de fome que nem o diabo quis amassar
Porque nos importa muito mais acordar do que acordar.
Porque desesperamos por despertar
Mas nos deixamos dormir e ir porque é bom ir e dormir.

Pisam a nossa língua e a vontade de a falar,
Engasgam a nossa escrita e escrevem o poema novo
Com o sangue do mesmo povo que se viu navegar
No mar que tantas vezes se encheu de lágrimas e de nós.
Tantas lutas caladas e tantas querelas sem voz,
Tantos dias iguais e tanta fonte espectral
Jorrando a mesma água parada de morte,
Enquanto, num canto, se canta à sorte:

Entorpeçam-nos, por favor, rapidamente
Que isto assim não parece Portugal.

Doente.
Dormente.
Sem mote.


Rafael Cardoso Oliveira

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Dia de Portugal - Tarde Modesta

Sem tempo para revisões de forma (ou reformas).


Dia de Portugal  - Tarde Modesta

Sentada à mesa farta de cor e farta de falar
Está Sofia, mulher de Baltazar e mulher só.
Farta de cantar ao pó e de contar migalhas,
Pensa da vida como de um conjunto de acendalhas
Demasiado frouxas para lhe dar um qualquer lume.

Sofia subiria até ao mais baixinho cume se as costas não doessem,
Se a vida fosse difícil mas não verdadeiramente insuportável,
Fosse o ar respirável e os seus pulmões inflassem de alegria
E não de lágrimas ante cada tareia e cada dia
Em que sente que, em verdade, a vida é muita areia
Numa praia a que se não conhece o fim ou o fundo.
Sofia gosta do mundo mas gostava mais do mar.
Gosta de ver, de observar mas já não gosta de fazer.
Está gasta de fazer, e Baltazar a faz ver que ser mulher
É eternamente cair e eternamente estar doente.
Eternamente sentir-se de tarde na vida
E saber que se chega sempre tarde ante o telefone que toca,
O arroz que queima, o filho que chora ou o pai que morre.

Sofia viveria numa toca se essa toca se chamasse “outra vida”.
Assim, vive só em Portugal.
Perdida, modesta e desmilinguida.
De galochas fortes mas com a água até ao peito

No pantanal.
Rafael Cardoso Oliveira

quinta-feira, 10 de março de 2016

D'amor irreal

Sem grandes revisões nem meta linguística (por sugestão de substituição de "metalinguística"): isto.

De’amor irreal

O meu amor tem os dois pés no chão
E o coração cheio de senãos,
Ou uns senãos cheios de coração.
É livre como as aves agrilhoadas
E tem a tendência a dar as mesmas voltas
Que elas,
Ainda que só em gaiolas imaginadas,
Dão.

O meu amor sabe medir os meus nadas
E mentir os meus dias para dizer que são bons.
Pinta, com deleite tangível e com todos os tons,
Os céus cinzentos das manhãs iguais.
Sabe-me as manhas e saboreia-me as mamas
Com toda a sua devoção espiritual
E o mesmo sentido de dever carnal.

O meu amor não se cala um segundo em mim,
E qualquer segundo amor que eu tenha,
Sendo ou não sendo seu, ele partilha.
Fervilha, doente, a cada crepitar da nossa lenha
E é por isso que cada amor dele
É coisa minha.
A nossa coisa é termo-nos nos termos
Em que as pessoas teimam em não se ter.

O meu amor sabe amar-me quando eu não sei viver.
E junta aos meus copos a mais o seu esplendor e raça
Teatrais.
Naturais ondas do nosso oceano de compreensão
Em que há barcos a naufragar e a chegar na mesma proporção
Das mortes e beijos de regresso do mundo real.

Por isso amo o meu amor assim:
Às vezes carnal e secamente,
Outras vezes só co'a mente,
E ainda outras vezes
É só ele que gosta de mim.

Rafael Cardoso Oliveira

                

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Amantes (ou o das mordidas que escolhemos)


Aguça-me os olhos como o lápis
Que pinta e ponteia o teu mundo,
Adoça-me os lábios com terra
E mandioca fria.
Tolhe-me os males das mãos por cortesia
E os calos dos pés por incerteza.
Questiona-me - com questiúnculas -
A minha rudeza feroz
E geme
Sempre que tiveres de dizer adeus.
Treme sempre que nos amarmos
Mais que a deus
(Que, a correr bem, será todos os dias.).
Afia-me como afias a espada da língua
Em meus ouvidos encerados,
Cheios de recados que não recordaria
Se não fosse o meu amor por ti.

Cala-me a boca só com beijos
E nomeia comigo todos os percevejos
Da nossa cama mortal.
O Ícaro, o Sísifo, o Homero e o teatral
Álvaro. O Campos, o Ernesto e o honesto
Hélder. E também Jobim Júnior (ou o Segundo).
Perfeitos percevejos do nosso mundo
Que é mundo de desejos
Como de lâmpadas fundidas.
Descansadas, como nós, entre duas vidas
Que são o estar fundido e o ser trocado.

Tu, e só tu, que és meu mundo escarlate às escondidas,
Dá-me a coragem de rejeitar-te nas horas mais apetecidas
Só para te ter quando te aborrece e também a mim.
Como amigos distantes que a distância enfim
Junta, julga, joga, ginga, gere e mata
Numa geringonça que só dá tiros pela culatra
E que é a ópera em que o nosso amor opera.
Ópera de operário, sem luzes e sem porquês,
Que encheu a sala só na vez que vês agora,
De Alcides, Franco, Roberta, Hemingway, Natalie e Saramago
As pulgas amargas que, juntos, deitámos fora.


Rafael Cardoso Oliveira

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Às três pancadas


De poemas em frente está toda a gente
Cansada.
Às três pancadas escritos constantemente;
Às três pancadas batendo em retirada;
Às três pancadas, na peça teatral da vida,
Dizendo lugubremente a sua linha ensaiada.
Às três pancadas: tudo.
Às três pancadas: nada,
Que nem tudo o que não nada,
Flutua para evitar morrer.

Às três pancadas abrimos a porta à morte
E com umas pancadas mais fechamos o caixão.
Nosso caixão e de todos os demais.
Puxando, se por dentro,
Ou de empurrão, se por fora vamos
Ou se por fora vão
As nossas mãos e as nossas intenções.

Às três pancadas declaramos amar,
E usamos de mais umas quantas para reforçar o amor.
Ignoramos as do peito, que o coração não bate nunca,
A não ser por três pancadas a mais de quando em vez.
Damos umas pancadas e umas bofetadas – também duas ou três –
Quando os reveses da vida são melhores que nós
E quando a voz se cansa de bater nos três cantos
Que geralmente têm os nossos dias,
As nossas salas e as cidades que habituamos.

Habituamos as coisas que habitamos
Às três pancadas.
Cumprimos os cumprimentos e os comprimentos
De mãos dadas com a indiferença da repetição.
E, medíssemos menos ou cumpríssemos menos,
Todo mundo perderia esta aleatória relação
De ser vivo e velho só porque se deixou aqui chegar.

De três em três pancadas temos fome e morre uma criança.
De três em três pancadas lembramos que temos um nariz que sempre vemos.
De três em três pedradas sentimos o ar que nos infla e desinfla todo o dia.
E de três em três pancadas nos lembramos porque odiamos poesia.
Porque está em nós a regra de deixar o mundo ir
Abater-se sobre os seus joelhos e rezar a um deus qualquer,
E a poesia não deixa isso. Não nos deixa a isso.
De três em três pancadas atraiçoamos a nossa dieta
E comemos broa abjecta com o pior chouriço
Enquanto, às três pancadas recordamos
Que a vida são três trancadas
No cu duro do mundo.


E cremos - porque precisamos - neste desfile de ignomínia e idiotia,
Que são como o sal do pão e a verdura de cada dia,
Fazendo bem e mal às três pancadas que somos
Ratos feitores do mais adorado raticida.
E assim vamos decidida e indizivelmente em frente,
De três passos em três,
Vendo eu o que tu não vês e incapaz de te compreender.
Vendendo, eu, o que tu não sabes negar nem aceitar.
Poetizando umas ideias para perder tempo e dinheiro,
E repetindo prosa fraca que nos finja iluminar
Enquanto cai da mesma cinza no mesmíssimo cinzeiro.
Para chegarmos a ver que o teu novo é o meu velho
Na roda da fortuna, que só tem um algarismo.
E enquanto Atlas empina o mundo num joelho
Saltamos todos, voamos todos, do mesmo abismo.

(Valha-nos tal colossal malabarismo)
Rafael Cardoso Oliveira



domingo, 13 de dezembro de 2015

Ode das Ostras

Tenho em mente um prato de quimeras,
Ou tenho, em minha frente, um desafio.
Um desatino qualquer, um dia sombrio,
Mas mais sombrio do que a sombra mais merece.
Tenho, ante mim, a mente sobre um prato de quimeras
E todas as esperas que esse prato me oferece.

Tenho, nele e dele, todas as minhas relutâncias
E as minhas ânsias gastas de ignorante.
Os meus dias de amante menos fulguroso.
Tenho deste prato um medo pavoroso
E uma vontade langue de lhe saber os sentidos.

É um prato cheio de ostras imaginadas, entenda-se.
Ou mesmo de ostras normais, se ajudar à poesia.
O afrodisíaco – dizem - que até ao mais frio homem aquecia,
E para a mais fria mulher fria era eficaz como soía.
Só aos poetas esta sensação não dá em nada.

Como ostras com a mesma pena pousada dos dias todos,
E o sol e os modos que costumo ter ainda cá estão.
Como ostras sabendo de antemão o que fariam
Mas sentido sempre que nunca, nunca hoje o farão.
Produto risível de um qualquer charlatão
Que me enganou e prometeu cura mais que certa
Para esta mente deserta com um prato cheio
De um bivalve simples - daqueles de abrir a meio –
Para lhe sorver a suculenta carne divinatória.

Uma carne para iluminar a oratória e as moratórias demoradas,
Para encarnar e criar ainda mais fadas
Que iluminem a minha escrita cada dia mais desfalecida.
Só podem ser estas umas quantas ostras estragadas,
Que não surtem efeito nenhum na minha vida.
Continuo murcho e estático, e longe poeta ineficaz.
Olhando o clarão lilás e dizendo que é bonito, sim senhor!
Mas sem mais que diga,
Sem um único clamor mais, 
Sem uma única linha que dure amanhã.

Talvez haja nadas que valham isto,
Talvez este seja o espoletar da poesia.
Amanhã há mais um dia que,
Com a sorte que venho tendo,
Será um outro dia qualquer.
(Vamos indo, vimos vendo)
Comendo ostras como quem come umas torradas,
Insistindo em rimas sinistras e erradas
Quando eu não gosto de ostras sequer.

Rafael Cardoso Oliveira


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Entre eu e tu

Sem queixas nem desculpas.


Entre eu e tu

Entre nós dois há a espada presa por um fio
De teus cabelos, que confio ser um fio forte.
Entre eu e tu há um mar, que é o desafio 
Por mentir entre indicar o sul e o norte.

Entre nós dois há a imensidão silenciosa
Que é só silêncio – ele mesmo – assim pousado
Como se por uma moça indecorosa,
Que sabe tão mais de poesia que de prosa
Que abusa dele mesmo estando ele calado.

Entre eu e tu há um nós que é uma parede.
Há esta rede, a trama, a teia; o sermos sós.
Entre nós dois há a mesma fome e a mesma sede,
E grita, internamente, a mesma voz.
Giramos, em eixos iguais, assim opostos,
Quais dois bonecos, manipansos sem justiça,
Que, num qualquer castelo de brincar
São de girar sempre e sempre nos seus postos.
Rodando em sua real grandeza de cortiça,
De metal, de madeira, de “tanto faz”,
Temos o azar da descoordenação por condição
E deste trocar o nosso olhar sempre fugaz.
Cada um roda na sua direcção,
Cada um olha o seu coração a nu.

Cai a espada e rasga o poema, e a minha mão
Sangra por escrever sobre eu e tu.


Rafael Cardoso Oliveira

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Espantalho Canalha

Às vezes, atribuímos um defensor mesmo aos campos onde não cresce coisa alguma.


Espantalho Canalha

Nos dias em que tenho sono e frio
E arreganho, ainda assim, os dentes
No sorriso mais fraco e mais sombrio
Que o dia me merece,
Tenho pena, mas sei que acontece,
De te atirar o meu espantalho canalha.

O das horas gastas a escrever sem sentido,
O do medo que tenho de não ser lido,
O da falta de paciência para ver o dia gasto,
O da violência que é perceber-me que me basto
Quando sempre achei que jamais me bastaria.

É triste atirar-te este espantalho canalha.
Melhor tivesse e melhor atiraria.

É um boneco velho e com pouca palha e, essa, fraca.
Está permanentemente de ressaca e não sabe beber vinho.
Cheira mal e não espanta um estorninho mais valente.
Não tem frio mas também não sabe ser quente
E, sobretudo, não tem sobretudo nenhum.

É o boneco ciente do meu dia igual todos os dias
E é uma maneira diferente de espantar as melodias
E as quimeras voadoras nas quais não quero pensar.

É triste atirar-te este espantalho canalha.
Só o faço para não me chatear.

E se te melindrar no processo, pouco importa.
Coloco um outro espantalho a bater à tua porta
Com um ramo de flores vulgar e palavras piores ainda.
Um que te implore um perdão indiferente
E que se finja de doente sem te ter.
Que suba e te beije a fronte empedernida
E que te chore por vida, quando a dele falta, claramente.

É triste atirar-te este espantalho canalha.
Mais triste é fazê-lo nova e novamente.

Pior é saber de forma tão vincada
Que mesmo este poema vale nada
E que é, ele mesmo, esse espantalho.
Uma poesia nua e empatada.
Palavras como uma papa enlatada e fria
Que eu não serviria ao pior cão que me tivesse.

E só tenho mesmo este espantalho.
Que tal parece?

E aqui fica: espetado e espantado por servir;
A julgar todos os versos que ninguém vai repetir;
E a olhar o meu campo árido de ideias e ideais.
Aponta - braços abertos - dois quaisquer pontos cardeais
E os destinos incertos que não consegue olhar.
Espera eternamente o teu abraço que o conforte
Ou um feiticeiro que lhe dê a morte,
Ou o dia mais feliz da minha vida,
Ou um pássaro que lhe prometa amizade.

É triste atirar-te este espantalho canalha…
Mas é que dói sempre menos que a verdade.

Rafael Cardoso Oliveira

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Oferta

Porque nem todos temos de rimar ao fim.


Oferta

Dou-te trinta motivos para chorar,
Cento e quarenta e duas cartas de amor e de penúria,
Um jarro de minha avó sem flores,
E minha boca inteira com luxúria
Beijando-te a fronte treze vezes.
Dou-te um sorriso fresco mas fingido,
Um riso fraco mas florido
Das sete flores que o jarro ora teria.
Dou-te três grinaldas que façam soar a cotovia
E a sensação de meia vitória de um dia vulgar.
Dou-te vinte e oito batimentos mais do que o normal
E a natural sensação de enfartamento
Dos apaixonados sem sentido ou sentimento…
Dou-te um beijo perto do ouvido que te arrepie
E ensurdeça durante um único segundo
Nesse momento, prometerei: vou dar-te o mundo.
Dou-te a minha esfera armilar para brincares
E os meus sete castelos, todos para os usares
Cada um num dia diferente.
Dou-te esta rua toda cheia de tanta, tanta gente
E o planalto ao fundo sem ninguém.
Dou-te a valentia de meu pai e a maresia de minha mãe
E a indecência das trezentas e sessenta e duas palavras deste poema.
Dou-te a minha vontade nos dias quebrados e este problema
Que é levantar do chão esta poesia.
Dou-te trinta canções de amor e mais daria
Se mais canções houvesse tão bonitas.
Dou-te os meus dez dedos e as horas aflitas em que param
E que duram a vida toda quando duram.
Dou-te quatorze pistolas que não disparam
Senão bandeiras, mentiras, disparates,
E os dois anéis que comprei com o dinheiro dos biscates
Que, sendo tolo, fiz por ti.
E, no meio das palavras, dou-te cem espaços, cem nadas
Para preencheres com os teus passos e as ousadas
Curvas que o teu corpo dá de madrugada.
Dou-te uma respiração soluçada, mas sincera,
E que são todas as esperas em que me sento e te olho só.
Dou-te tudo o que há de bom nesta Primavera
E o que há de menos bom no meu coração…
Os trinta motivos maus do meu coração.
E esperamos, juntos, que chegue o Verão.
Assim espero.
Porque te ofereço tudo o que demais tenho
As tantas, tantas coisas que mais quero
Mas que não são o que eu quero mais.


Rafael Cardoso Oliveira

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Curta carta

Slowly but surely.


Curta carta

Às vezes, atiras-me esse olhar estragado...
Que cheira a café e a molhado,
Que cheira a doce longe e a maresia demais
Mas que jamais vem cheirando a poesia.
E me olhas com esse olhar desmaiado
Entre tantos outros olhares que podias ter escolhido.
E eu, na rua onde vou sozinho e ensimesmado,
Digo que não gostas de mim.

Às vezes, atiro-te este sorriso idiota…
Que cheira a café e a molhado,
Que merece, sem dúvida tua, ser alvo de chacota,
Mas que vem embrulhado em poesia.
Não são bons versos nem bonitos,
Mas são aqueles que são ditos
Na ridícula vergonha que tenho de escrevê-los.
E te olho, pois são só para ti e só tu podes tê-los
Entre tantos outros que podia ter escolhido,
Entre tantas outras mulheres a quem escrevi…
E, na rua onde vou sozinho e ensimesmado,
Digo que gosto de ti.

Rafael Cardoso Oliveira

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Investida

Mais um. Mais uma vez.


Investida (ou o do perdão poético)

Perdão, nossos pais, se nos desviámos do caminho…
Se perdemos o rumo da poesia porque a olhamos demasiado perto
E isso nos queimou a retina e a rotina.
Isso ou todo o vinho tinto, ou tonto, por certo,
Que bebemos insaciavelmente para digerir o torpor da mente,
Para dirigir as palavras como a espada certa que são,
Para tirar o normal tremor do mundo.
Por isto, pedimos perdão.

O homem fecundo na mente e coração é uma besta aborrecida
Que cuida ver melhor tudo o que é vida
Por achar que, para ver as estrelas,
Terá sempre de esquecer o chão.
O deixar o chão é afirmar a matéria e razão que ele é.
O ignorá-lo e esquecê-lo é dar a cosmos a sensação
De que somos tão importantes como o chão.
E não.
Não somos, não.

Nenhum homem vale o chão que pisa ou corre,
A ideia que na mente lhe grassa,
O filho que no ventre lhe morre,
Nenhum poeta vale um verso inteiro
E nenhuma bala aponta certa ao coração.
Nem todas as maçãs são gravidade
E nem todas as musas são verdade.
Nem toda a poesia é torta e só sem luz
E nem toda a porta se abre sempre para Jesus.
Nem todos gostamos de alcaçuz,
Alguns apenas mesmo de Jesus…
Doce por doce, ou mal por mal,
Venha o diabo e escolha,
Deste mundo mundanal, a salvação.
Por isto, pedimos igual perdão.

Perdoem-nos, nossos pais, nossa poesia inquieta.
Esta miopia de quem vê a um palmo das estrelas
E tem de semicerrar os olhos para não cegar.
Perdoem o querer ser demais sem ser muito mais.
O querer usar as palavras todas quando poucas são precisas.
O gritar e chorar por tantas musas indecisas
Quando bastava chamar por nossa mãe.
Perdoem a nossa arrogância tão bem disfarçada
Entre palavras bonitas e que, tanta vez, não dizem nada.
Também a petulância de vos lermos demasiadas vezes
E, nos entremezes da nossa escrita, vos esquecermos.
Tudo enquanto nos latejam na cabeça
E nos pesam na mão.
Por isto, pedimos mais perdão.

E, no entanto, pesando a pena e o nosso jugo nos cangotes
Saímos neste papel inteiro vociferando vossos motes
Que são os nossos,
Que a pátria nos é igual, por madre nossa.
Portugal, que és pai e mãe de tantos párias,
Ergue-te e ouve também estas lendárias
Palavras de quem já não sabe ser feliz sem poesia!
Que não são meus, nem nossos, nem de ninguém estes sentidos!
E hão de sussurrar mil bocas em todos os ouvidos
Até que a terra inteira se consuma:
O melhor dos filhos é a sua revolta de inocentes!
A sua vontade velha de fazer a coisa nova!
De rodar as rodas à engrenagem e queimá-la se não presta
E de, todo o dia, fazer poesia melhor que esta.

Nenhum poeta vale um verso inteiro
E há versos que hão de valer minha vida.
E há dias, e não poucos são, que morreria só por um.
Por saber disto e, meus pais, vos dever isto
Perdão,
Mas não peço perdão algum.


Rafael Cardoso Oliveira
Ite, missa est

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O das sortes ou Ode às sortes ou Só dás sortes

Porque é sempre difícil voltar à vida disto, deixo só a seguinte mensagem: Seja responsável. Pense com moderação.


O das sortes ou Ode às sortes ou Só dás sortes

As moedas que atiramos ao ar
Caem, invariavelmente, na nossa cabeça.
Ainda que nos aterrem na mão, na algibeira,
No balcão onde a criada velha nos reprova a borracheira
Ou no coração onde, criados velhos, vamos sempre devagar.

São assim as moedas que atiramos ao ar.

Feitas de metal que é só o nosso olhar
A olhar para elas enquanto rodam, coloridas.
Nessa altura não são moedas: são vidas
Que rodopiam e se escusam à razão.
As moedas que lançamos ao ar estão todas na nossa cabeça
E todas caem, com estrondo, no mesmo chão.
Caem na loiça vazia da aspereza do nosso dia,
E não a partem porque fazem mais barulho sem partir.
Todas as moedas vão de sorte e, com sorte,
Todas a hão de voltar e de cair…
Antes (d)a morte.
Antes (de) ir.

As moedas que atiramos ao ar são a nossa expectativa.
São mais que o querer ganhar: são mau perder!
São a nossa presunção de as depositar num ofertório
Da missa de um padre transitório como é a nossa cristandade.
As moedas que lançamos ao ar são todas a verdade,
E todas são o medo que temos de a enfrentar.
“Antes a sorte que tal sorte...” – dizemos e lançamos
Apertamos bem os nós dos dedos e, cegos, fitamos
O que o destino nos tem reservado.
Bruxo de cega sina e mau-olhado,
Pecado só pago no cestinho da missa matutina.

São assim as moedas que atiramos ao ar.

E há os que as apanham no ar, pensando vencer a charada.
Mas as moedas que não chegam ao seu ponto não são nada.
Cada moeda tem o seu destino a cumprir
E, por isso, será uma a decidir
O este poema poder acabar à toa.

Coroa.

Coisa rara:
Cair-me na cara uma coroa.

Rafael Cardoso Oliveira

"São sete da tarde e passa tudo a correr
Alguém vai para casa tratar mal a mulher
Ele acha natural, ela esconde as suas rugas
Aquele ali vai p'rós copos tratar das suas fugas."
Sete, Jorge Palma


domingo, 18 de janeiro de 2015

O poema dominical

Próprio para consumo, e com o relato curto das últimas publicações. Entretenham-se.

O poema dominical

Irmãos,
Naquele tempo - que, até ver, é este - disse Jesus,
Co’a voz pesada e compassada que era de si:
“Nenhum poema há de pregar-se nesta cruz
Nenhum verso há-de morrer aqui.
Preguem-se os homens, as deidades, as ideias,
As cousas feias. Jamais se prenda a luz!
E maldito seja o blasfemo que o negue:
Que os homens o não escutem e deus o pregue!”

E, como hóstia divina aos céus entregue,
Endereçou, o filho pródigo, a maldição:
Aos ouvintes que não sabiam o que falava,
Ao povo que só lhe pedia peixe e pão.
E ignorantes, compuseram, em segredo,
A oração de quem não sabe e, só, tem medo:

“Pai nosso, que não sabemos onde estás,
Santificado seja o vosso nome.
Venha a nós o vosso reino, que o rapaz
Que é vosso filho diz que lá ninguém tem fome.
Seja feita a nossa vontade… (Ou saciada, que é igual)
Antes de morrer e, se puder ser, depois um dia.
E livrai-nos do mal e dai-nos peixe, leite, azeite e sal
Que p’ra comer só há pão nosso de poesia.”

Rafael Cardoso Oliveira

"Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada,

mas não digas nada que eu estou a salvo." - Livro das Invenções

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Catatuas Catatónicas

Sem mais de momento. Para os pacientes:


Libertação ou o poema catártico das catatuas catatónicas

Voam, sobre mim, duas catatuas catatónicas.
São duas.
Não convirá serem mais que duas, para fins de poesia.
São brancas e bonitas, de cristas amareladas
Ricas e educadas.
Pairam, mas estão aflitas por ir embora.
Esbracejariam, se braços tivessem.
Vociferariam, se eu lhes desse uma voz.
Mas não dou. Este poema é meu
E vai só aonde eu lhe permitir.

Voam, sobre mim, duas catatuas catatónicas.
São três.
Três da manhã, entenda-se, o surrealismo tem o revés
De não poder trocar os pés pelas mães.
Pelo menos não sem avisar.
Não! A não ser para deixar de calças na mão o incauto leitor
Que, contando ler o que é normal e real,
Esqueceu que este poema é meu
E só vai aonde eu lhe permitir.

Voam, sobre mim, duas catatuas catatónicas.
São parte importante deste poema catártico.
E, se me fartar delas, pelo bem do clímax dramático,
Hão de sair com o estrondo de um canhão
E deixar, em seu lugar, minha nação.
Toda florida. Toda sorrindo.
Toda uma ilusão…
Toda cheia de belezas, num poema de incertezas.

Mas ainda voam, sobre mim, duas catatuas catatónicas,
Cativas neste cativeiro cruel, e de um calhorda,
À espera que se delas faça açorda
Ou que delas não se faça nada!
Que voem neste seu voo de coisa paralisada
Que o leitor as imagine como minha coroa dourada,
Minha beleza criada só para enfeitar,
Meu bocado de poesia endiabrada,
Minhas palavras que puxam a imaginação.

E hão de rodar sobre mim! Rodarão como as hélices e os moinhos.
Hão de viver aqui até eu deixar azedar todos os vinhos
Que criarei só para manter e embriaguez desta poesia.
Hão de deixar a vida e continuar voando mortas
Presas como marionetas, como coisas tortas que serão,
Como dois seres estropiados e escangalhados
Só por terem vivido tempo demais neste papel
Ou sem haver qualquer razão.


E eu, dono cruel, continuarei nesta limpeza
De mim.
Usarei as palavras que não têm outro fim,
E que às vezes guardo só por inútil avareza.
Usarei da mesma destreza que usei
Para prender duas aves tão inocentes,
Para prender também as mentes
Num poema sem razões,
Sem coerência,
Sem interpretações que, morrendo eu,
Lhe darão mil cabeças que não a minha.
Este poema é meu e não da minha vizinha,
Não do meu tio, não do meu pai ou de minha mãe
E nem de meu irmão é. Sem todos eles passa bem.
E vai só aonde eu lhe permitir.

Este poema é meu, e vai só aonde eu lhe permitir.
Este poema sou eu, e vou, só, aonde me permitir.

Este poema é meu, apesar de a poesia não ser.
Este poema ainda vai estar cá quando eu morrer.
Este poema não tem catatuas porque eu já não quero!
Como infante infeliz, como um príncipe austero
Que manda só porque gosta de mandar.
E, por tudo isto, por ser demasiado livre,
Tem este poema de acabar.
Tenho, neste poema, de acabar.
Por ser meu, por ser eu, por existir
E ir, só, aonde eu me permitir.

Vou findando. Vou fundando. Vou voar.
Rafael Cardoso Oliveira
sem citações

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Comunicado

Se fizesse diferença a alguém, dir-se-ia que estamos em 2015. Como a única diferença que faz é no dia que já passou - porque todos o vimos passar -, sigamos, só, em frente.

Comunicado

Hoje, o poeta pediu para informar que está ausente;
Que não há nada de muito premente ou importante
Ou que brilhe mais do que o que é constante,
E que, por tal, valha a pena poetizar.

Assim, vem este pequeno trecho de enfado
Desejar a todos quanto o lêem o bom bocado
De não terem trabalho nenhum.
Este comunicado é bom e acertado
E maldito seja quem nele vir mais do que nele há.
É só um comunicado comum.

Deixou-me, o próprio poeta, ainda, a seguinte mensagem:
“O fogo-de-artifício das palavras está extinto
Para não dar que fazer a quem pensa.”
Em P.S.: Diz ter, sobre a mesa, uma garrafa de vinho tinto
E a vaga sensação de humanidade que, há muito, não tinha.

Ou talvez seja humidade. Lê-se mal a última linha.

Rafael Cardoso Oliveira


"Beauty is truth, truth beauty - that is all
Ye know on earth, and all ye need to know."
John Keats em "Ode on a Grecian Urn"

sábado, 27 de dezembro de 2014

Exemplares

Sem muitas explicações que sejam alusivas a isto, à vida disto, ou ao momento "Dickens", que poderá aparentar pairar sobre a cabeça do sujeito poético, oremos.

Exemplares

Há poemas que leio de vez em quando.
Outros que lembro de quando em vez.
Mas há alguns que vêm mesmo ter comigo,
Ainda que me esconda.
Ainda que sejam três da manhã,
E tenha muito sono ou então muito café bebido.
Dou conta de que, a todos, já tinha lido
Mas que necessito sempre de uma segunda luz.

“Maria Amélia vai, lindamente assobiando,
Limpando pratas que não são dela, Maria.
Amélia, abençoada como a luz do dia,
Crocitaria, se fosse ave menos luzidia…
Mas canta só, qual rouxinol, que ainda não sabe
As mentiras que conta o menino António.
E, se o lacre brasonado não tem forma de demónio,
É só porque fica mal para os de fora.
O mereceria a crueldade e rudeza bem ocultadas
Por entre os molhos de rendas, pratas e pilhas de almofadas
Que Amélia vai limpando, de ignorante.

Todos sabem a que se dão as almofadas:
Ou a lutas de crianças enfadadas
Ou a tiros que, em silêncio, se querem dar.

Seu irmão Alberto,
(de Amélia, patrão,
De António, vago familiar)
É tão certo ser tão pouco certo
Como o brasão os faz a todos, por exemplar.
Gente ruim, mas que, em jeitos de ocultada,
Parece boa gente, parece crente e ajuizada
Mas só quando se olha de fora.”


“António Augusto não lida bem com citações.
Vive uma vida, agora, cheia de repelões e raspanetes…
E esquece sempre se são nabos ou rabanetes
Que lhe pediu a mulher, quando ainda lho confia.
Maldito homem que já não sabe sequer o dia,
Já não sabe que prosa quer, quando só escreve poesia.
E assim definha, e morre, e nem arde sequer
Que para arder há que ter, ao menos, combustível…
António Augusto é a fagulha indizível do que foi um dia.
Hoje é um ideal quando um dia foi um mote,
Hoje é um galope trôpego, do que um dia foi um bonito trote.
Maldita vida que (o) levou, tão exemplar.
E agora o poema dele não pode continuar.”


“O pequeno Pedro continua fitando a rua,
E sabe que passa o camião dos gelados,
Mas só daí a duas horas.
Pouco importa. Pedro é dado a estas demoras,
Porque gosta, também ele, de se demorar.
Gosta de cantar com o mestre Fernando lá da rua,
E gosta das canções do seu país…
“Pátria de indescritível sensação, outrora” dizem todos
E o petiz desanima e pensa que não sabe que hora foi,
Se é que Hora houve.
Gosta das canções do seu país mas mais da sua,
Porque sabe que ainda não vai condenada -
Qual velha que se atira do penhasco exasperada
Porque ninguém lhe elogia os cachecóis
Que tanto trabalho a fiar dão.

“País antigo, exemplar, de sensação!” – Pedro ouve sempre…
E sempre repara que nisto há um misto de verdade
E de aldrabice… Menino sereno, que na sua meninice,
Nem sabe mas há-de compor a Pátria nova.
Que brilhe e que ecoe e que vá onde tem de ir.
Por isso Pedro é só, mas a sorrir.”

E são assim os poemas que me vêm ter,
Batem-me à porta um dia ou outro,
De quando em vez, de vez num quando.
E eu, pai infeliz, tenho de os sempre receber,
Que os dei ao mundo, mas neles já não mando.
E, entre a mulher que limpa tudo mas não sabe
Quão profunda é a sujeira que lhe resta,
O velho esquecido que esqueceu sua bandeira
(ainda que fosse só poesia – que não presta),
E o menino que há-de parir Portugal,
Raia o meu dia. Acorda o mundo, mundanal.
São horas de ir:

Entalo a pistola no meu cinto
E, com uma almofada, das mais velhas, numa mão.
Digo que sou ladrão
Ou que, ao menos, poeta não sou.
E minto.
E vou.

Rafael Cardoso Oliveira


"Why do you doubt your senses?"
"Because," said Scrooge," a little thing affects them. A slight disorder of the stomach makes them cheat. You may be an undigested bit of beef, a blot of mustard, a crumb of cheese, a fragment of an underdone potato. There's more of gravy than of grave about you, whatever you are!"
Enbenezer Scrooge in "A Christmas Carol", Charles Dickens